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Dakar 2026: Portugueses em grande plano num Dakar de loucos

A primeira semana do Dakar 2026 termina com a sensação clara de que estamos perante uma das edições mais imprevisíveis, duras e competitivas da última década. Seis etapas bastaram para virar classificações do avesso, destruir favoritismos, revelar novos protagonistas e confirmar que a luta entre construtores — Ford, Toyota, Dacia, Mini e Polaris — está mais aberta do que nunca. Pelo meio, a armada portuguesa tem sido uma das histórias mais consistentes e emocionantes desta edição, com desempenhos de topo em várias categorias e uma resiliência que continua a impressionar o bivouac.

240 FERREIRA Joao (por), PALMEIRO Filipe (por), Toyota Gazoo Racing, Toyota

A semana começou com um prólogo rapidíssimo, onde Mattias Ekström colocou a Ford no topo e os portugueses mostraram logo argumentos: João Ferreira foi 12.º, Gonçalo Guerreiro brilhou com o 2.º lugar nos SSV e Paulo Fiúza colocou o camião de Vaidotas Žala no 2.º posto. “Foi um prólogo super, super-rápido, com navegação muito tricky”, descreveu João Ferreira, enquanto Palmeiro sublinhava que “o road book estava diferente, parecia desenhado por pessoas novas”.

222 DE MEVIUS Guillaume (bel), BAUMEL Mathieu (fra), X-raid MINI JCW, Mini

A Etapa 1 trouxe a primeira grande reviravolta: Ekström perdeu tudo nos últimos 40 km e Guillaume de Mévius venceu com navegação limpa. “Não era o objectivo ganhar, mas foi uma boa surpresa”, admitiu o belga-francês. A Ford colocou cinco carros no top 10, mas perdeu a vitória que parecia garantida. Nos Challenger, a Taurus dominou por completo, com nove carros nos nove primeiros lugares, e Rui Carneiro foi o único “intruso” no top 10. Nos SSV, Alexandre Pinto brilhou com o 2.º lugar, enquanto Gonçalo Guerreiro foi 5.º. João Ferreira e Palmeiro terminaram em 14.º e reforçaram a consistência portuguesa: “Havia zonas entre canyons onde era fácil perder referências. Optámos por um ritmo equilibrado”, explicou o piloto de Leiria.

Gonçalo Guerreiro e Maykel Justo venceu a etapa 2 nos SSV

A Etapa 2 ficará para a história: a Toyota monopolizou o top 5 — algo que não acontecia desde 2007 — com Seth Quintero a vencer e João Ferreira a assinar um extraordinário 5.º lugar. “Depois do pit stop puxámos um pouco e acabámos em quinto”, disse o português, que subiu ao 6.º da geral. Nos SSV, Gonçalo Guerreiro conquistou a sua primeira vitória no Dakar, impondo o Polaris da Loeb FrayMédia Motorsport – RZR Factory. “Foi preciso atacar e gerir ao mesmo tempo”, explicou. A Defender Rally voltou a dominar na Stock e Gert Huzink quebrou a hegemonia Iveco nos camiões.

228 GUTHRIE Mitch (usa), WALCH Kellon (usa), Ford M-Sport, Ford

A Etapa 3 virou o Dakar do avesso: Ford assinou um inédito “top 5” absoluto e Mitch Guthrie Jr. assumiu a liderança geral. Cristina Gutiérrez igualou o seu melhor resultado na Ultimate, enquanto Seth Quintero e De Mévius viveram autênticos pesadelos com múltiplos furos. Puck Klaassen entrou para a história ao vencer nos Challenger — apenas a quinta mulher a vencer uma especial em carros/SSV. Nos SSV, Brock Heger manteve a hegemonia Polaris e Gonçalo Guerreiro reforçou a candidatura ao pódio. Entre os portugueses, o dia foi de sobrevivência: João Ferreira sofreu dois furos e Maria Gameiro ajudou rivais, cedendo rodas a De Mévius e Lionel Baud. “Foi um dia duro, com muito pó e muitas pedras”, resumiu.

400 PINTO Alexandre (por), OLIVEIRA Bernardo (por), Old Friends Rally Team, Polaris

A Etapa 4 trouxe novo abanão: Henk Lategan venceu e assumiu a liderança geral, enquanto Yazeed AlRajhi abandonou após três furos. Nos Challenger, Cavigliasso venceu e tornou-se o quinto vencedor diferente em cinco dias. Nos SSV, Brock Heger voltou a dominar, mas os portugueses João Monteiro e João Dias assinaram um brilhante 2.º e 3.º lugares. Alexandre Pinto subiu ao 3.º da geral e reforçou a liderança do W2RC. Nos Stock, a Defender voltou a monopolizar o pódio. Nos camiões, Macík assumiu a liderança geral. João Ferreira voltou a ser o melhor português, apesar do tráfego intenso: “O Dakar está longe de ser um sprint. A consistência continua a ser determinante.”

240 FERREIRA Joao (por), PALMEIRO Filipe (por), Toyota Gazoo Racing, Toyota

A Etapa 5 — segunda metade da maratona — foi um teste de sobrevivência. Nani Roma venceu na pista, mas perdeu o triunfo por penalização, entregando a vitória a Mitch Guthrie Jr., que reforçou o domínio Ford. A navegação foi um dos temas do dia: “Foi uma etapa muito complicada”, disse Édouard Boulanger, enquanto Marek Goczał relatou que “a 50 km do fim partimos um triângulo da suspensão”. Nos Challenger, Lucas Del Rio venceu e Pau Navarro assumiu a liderança. Nos SSV, Kyle Chaney deu a primeira vitória à Can-Am. Nos Stock, Baciuška voltou a vencer e reforçou a liderança. Entre os portugueses, João Ferreira e Palmeiro foram 8.º e subiram ao 14.º da geral. “Dormimos no deserto, muito frio. Hoje fomos cautelosos para garantir que chegávamos”, relatou o piloto. Gonçalo Guerreiro manteve consistência e Alexandre Pinto perdeu tempo com danos na suspensão, mas continua na luta pelo pódio.

299 AL-ATTIYAH Nasser (qat), LURQUIN Fabian (bel), The Dacia Sandriders, Dacia,

A Etapa 6 fechou a semana com mais um capítulo histórico: Nasser AlAttiyah venceu pela 49.ª vez e ficou a uma vitória do recorde absoluto. Recuperou a liderança geral e deu à Dacia o seu primeiro “one-two” com Sébastien Loeb em 2.º. “A missão de recuperar está em andamento”, disse o francês. A Ford colocou três carros no top 5 da geral e Nani Roma regressou ao pódio provisório. Nos Challenger, Casale venceu e Navarro reforçou o comando. Nos SSV, De Soultrait voltou a vencer e reduziu a diferença para Heger. Nos Stock, Sara Price liderou mais um “123” da Defender. Nos camiões, Van den Brink recuperou a liderança e Paulo Fiuza manteve o Iveco no top 5.

Participação portuguesa: uma semana de afirmação

#248 GAMEIRO Maria Luis (Por), ROMERO Rosa (Spn), X-raid MINI JCW, Mini

A primeira semana do Dakar 2026 confirmou a força crescente da presença portuguesa. João Ferreira e Filipe Palmeiro estão entre os melhores privados da Ultimate, já com dois top 5 e ritmo para discutir lugares cimeiros. Gonçalo Guerreiro venceu uma etapa nos SSV e mantém-se no top 5 da geral. Alexandre Pinto está no pódio provisório da categoria e lidera o W2RC. João Monteiro e João Dias assinaram um histórico duplo pódio na Etapa 4. Maria Gameiro tem sido um exemplo de resiliência e espírito Dakar, ajudando rivais e completando etapas duríssimas. Nos camiões, Paulo Fiuza mantém o Iveco no top 5 e continua a ser um dos navegadores mais influentes do rali. A consistência, a inteligência estratégica e a capacidade de adaptação têm sido marcas da armada portuguesa, que entra na segunda semana com ambições reforçadas.

Com o dia de descanso em Riade, o Dakar 2026 entra agora na fase decisiva. As dunas mais duras ainda estão por vir, a navegação promete voltar a baralhar contas e as diferenças curtas deixam tudo em aberto. Uma coisa, porém, já ninguém tira: os portugueses estão entre os protagonistas desta edição — e a segunda semana promete ainda mais emoção.

Classificação geral após 6ª etapa