Notícias do Mundo Motorizado

Portugueses Resistentes num Dakar de Viragens Dramáticas

A 9.ª etapa do Dakar 2026 — a primeira metade da temida maratona Wadi Ad Dawasir > Bivouac Refúgio — voltou a baralhar por completo a hierarquia da prova, oferecendo um dos dias mais intensos e imprevisíveis desta edição. Entre navegação traiçoeira, problemas mecânicos, reviravoltas na geral e desempenhos de enorme resiliência, a etapa ficará marcada pelo triunfo histórico de Eryk Goczał na Ultimate, pela ascensão de Nani Roma à liderança e por mais um dia de luta dura para os portugueses.

205 GOCZAL Eryk (pol), GOSPODARCZYK Szymon (pol), Energylandia Rally Team, Toyota

A especial de 410 km, maioritariamente disputada em terreno rochoso antes de uma longa travessia de dunas, foi palco de um feito inédito: o jovem polaco Eryk Goczał, de apenas 21 anos, conquistou a sua primeira vitória na Ultimate, assinando também o primeiro triunfo polaco na categoria desde 2012. Partindo de 38.º, Goczał recuperou 17 posições e bateu… o próprio tio, Michal Goczał, garantindo um inédito “family one-two” para a Energylandia Rally Team. No final, o jovem não escondeu a emoção: “Hoje cumpri um dos meus maiores sonhos. Ataquei o máximo possível, a navegação era muito difícil, mas fizemos tudo certo. Não sei se vou conseguir dormir esta noite”, confessou.

Toby Price completou o pódio, finalmente a alcançar o seu primeiro top 3 na Ultimate, apenas 22 segundos à frente de Brian Baragwanath. Guillaume de Mévius fechou o top 5.

Mas o grande abalo do dia deu-se na classificação geral. Nani Roma recuperou a liderança do Dakar pela primeira vez desde o seu triunfo em 2014, superando o colega de equipa Carlos Sainz por apenas 57 segundos. O espanhol chegou a liderar virtualmente após os 309, 351 e 380 km, mas uma penalização de 1’10’’ acabou por custar-lhe o topo da tabela. Nasser Al-Attiyah, que também enfrentou dificuldades de navegação, caiu para terceiro, a 1’10’’ de Roma, mas mantém-se perigosamente perto.

A etapa foi cruel para dois candidatos ao pódio: Henk Lategan perdeu 14 minutos num pit stop para reparar a direção assistida, caindo para quarto, já  Mattias Ekström cometeu um erro de navegação grave e desceu de 2.º para 5.º, agora a 11’19’’ do líder.

Challenger: domínio neerlandês e queda de Cavigliasso

310 SPIERINGS Paul (ned), VAN DER STELT Jan Pieter (ned), Rebellion – Spierings, Taurus,

Na Challenger, Paul Spierings venceu a etapa e reforçou o momento neerlandês iniciado por Puck Klaassen no dia anterior. Kevin Benavides e David Zille completaram o pódio. O drama maior foi o de Nicolás Cavigliasso, que sofreu danos no radiador e perdeu mais de 1h30, caindo de 2.º para fora da luta pela vitória. Pau Navarro reforçou a liderança e segue agora com mais de 40 minutos de vantagem.

SSV: “Chaleco” vence, Heger controla — e os portugueses mantêm-se na luta

402 LOPEZ CONTARDO Francisco (chi), LEON Alvaro (chi), Can-Am Factory Team, Can-Am,

Nos SSV, Francisco “Chaleco” López voltou a mostrar porque é um dos nomes grandes da categoria, conquistando a sua 20.ª vitória em especiais Dakar e igualando Seth Quintero no total combinado SSV + Challenger. Johan Kristoffersson voltou a surpreender com um excelente 2.º lugar, enquanto Hunter Miller fechou o pódio. Brock Heger mantém uma liderança sólida na geral, agora com dois norte‑americanos no topo — algo inédito na história da categoria.

Entre os portugueses, o dia foi de contrastes. João Monteiro e Nuno Morais, que têm sido uma das duplas mais consistentes da prova, perderam hoje o 2.º lugar da geral para Kyle Chaney, mas continuam firmemente instalados no pódio provisório, a gerir a corrida com inteligência e foco num resultado histórico. Hélder Rodrigues e Gonçalo Reis assinaram uma etapa muito positiva, colocando o Polaris na 7.ª posição do dia e reforçando a sua presença no top‑10 da categoria, num Dakar que tem sido particularmente exigente para as máquinas e para os navegadores. Já Alexandre Pinto, que chegou a rodar em ritmo de vitória, perdeu tempo na fase final da especial e caiu algumas posições, mas demonstrou andamento para discutir triunfos até ao final da prova.

Stock: Baciuška imparável

502 BACIUSKA Rokas (ltu), VIDAL Oriol (esp), Defender Rally, Defender,

Rokas Baciuška voltou a dominar e somou a quarta vitória em especiais, ampliando ainda mais a vantagem superior a três horas na geral. Sarah Price foi segunda e Akira Miura terceiro. Stéphane Peterhansel voltou a enfrentar problemas e perdeu mais 45 minutos.

Truck: Loprais impõe autoridade enquanto Macík afunda as hipóteses de título

602 LOPRAIS Ales (cze), KRIPAL David (cze), STROSS Jiri (cze), Loprais Team De Rooy FPT, Iveco

A luta entre os camiões voltou a ser um espetáculo à parte nesta 9.ª etapa, marcada por um ritmo altíssimo e por dificuldades mecânicas que abalaram a classificação. Ales Loprais conquistou a sua terceira vitória nesta edição — depois dos triunfos nas etapas 1 e 6 — impondo-se desde o km 309 e resistindo ao ataque final de Vaidotas Zala, que terminou a apenas 3’10’’. Mitchel van den Brink, líder da geral, completou o pódio do dia e manteve o controlo da categoria, apesar de ter perdido alguns minutos para os rivais diretos. O grande drama foi o de Martin Macík, que voltou a enfrentar problemas sérios: depois de parar ao km 252, ainda regressou à pista, mas foi forçado a nova paragem para reparações, hipotecando definitivamente as hipóteses de lutar pelo título. Com Loprais a subir ao pódio provisório e Zala a consolidar o segundo lugar, a categoria dos camiões entra na segunda metade da maratona com a classificação mais aberta do que nunca — e com a sensação de que qualquer erro poderá custar caro nas dunas que aguardam amanhã.

Os Portugueses: um dia de sofrimento, coragem e sobrevivência

A etapa foi particularmente dura para as equipas portuguesas, que enfrentaram contratempos sérios mas demonstraram enorme resiliência.

240 FERREIRA Joao (por), PALMEIRO Filipe (por), Toyota Gazoo Racing, Toyota,

João Ferreira e Filipe Palmeiro viveram um dia para esquecer. Depois de um início promissor que os colocara na 9.ª posição da Geral Virtual, tudo se complicou:  primeiro, uma fuga de óleo deixou-os sem direção assistida durante 50 km,  depois, já a 100 km do fim, no pó de outro concorrente, a Hilux embateu numa pedra e perdeu uma roda.

Ferreira explicou: “Não há muito a dizer… conseguimos reparar e acabar a etapa, mas perdemos mais de 2h30. O nosso único objetivo agora será lutar por vitórias em etapas.” Sem assistência oficial no bivouac-refúgio, a dupla terá de gerir o que resta da viatura até Bisha.

Hélder Rodrigues e Gonçalo Reis concluíram a etapa em 7.º dos SSV, num dia extremamente exigente. O veterano português, na sua 13.ª participação no Dakar, mantém o foco: terminar a prova com sucesso.

Maria Luís Gameiro e Rosa Romero enfrentaram um dos dias mais duros da sua campanha. Um toque violento no diferencial do MINI JCW T1+ obrigou a dupla a parar na zona de troca de pneus para tentar “remendar” o problema. Seguiram depois em ritmo muito cauteloso, com o diferencial a fazer “um barulho medonho”, como descreveu Maria Luís. A navegação difícil agravou ainda mais o atraso. Ainda assim, chegaram ao bivouac e mantêm-se em prova:
“Enquanto o Dakar nos deixar andar, eu vou andando. O importante é continuar e chegar ao fim.”

Pedro Gonçalves e Hugo Magalhães terminaram a etapa em 50.º, enquanto João Monteiro e Nuno Morais seguem firmes na luta pelo pódio dos SSV, apesar de terem perdido hoje o 2.º lugar para Kyle Chaney.

Alexandre Pinto, que chegou a lutar pela vitória na etapa dos SSV, perdeu tempo no final e caiu na classificação, mas mostrou andamento para discutir triunfos.

A 9.ª etapa confirmou o que já se suspeitava: este Dakar 2026 será decidido ao segundo, e não ao minuto. A luta entre Roma, Sainz e Al‑Attiyah promete incendiar os próximos dias, enquanto os portugueses continuam a demonstrar a fibra que caracteriza quem enfrenta o deserto com coragem e determinação.

Etapa 10 – Bisha › Bisha

Amanhã, a caravana enfrenta a segunda parte da maratona, rumo a Bisha, com 371 km cronometrados e um extenso setor de dunas — terreno onde tudo pode mudar novamente.

A etapa 10 do Dakar 2026, segunda metade da maratona, promete ser decisiva e particularmente dura para todos os concorrentes. Sem assistência mecânica durante a noite — apenas o que cada equipa conseguiu reparar com os próprios meios no bivouac‑refúgio — os pilotos partem para 371 km cronometrados entre o acampamento isolado e Bisha, enfrentando um dos setores de dunas mais extensos desta edição. Será um dia de navegação exigente, com cordões de areia sucessivos, zonas de transição traiçoeiras e uma especial onde a gestão mecânica será tão importante quanto a velocidade. Para quem chega com danos acumulados, como várias equipas portuguesas, será uma etapa de sobrevivência; para quem luta pela geral, um terreno onde segundos podem transformar‑se em minutos. Com o Dakar totalmente em aberto, esta etapa 10 tem tudo para ser um ponto de viragem — ou um golpe fatal para quem arriscar além do limite.