A 10.ª etapa do Dakar 2026 voltou a provar porque é considerada uma das mais duras e imprevisíveis da história recente do rali. A segunda parte da maraton, sem assistência externa, transformou‑se num campo de batalha mecânico, físico e emocional, onde alguns candidatos ao pódio ruíram e outros emergiram com força renovada. Entre eles, vários portugueses deixaram marca, tanto nas viaturas ligeiras como nos camiões, onde Paulo Fiuza assumiu particular protagonismo ao comandar a classificação geral como navegador de Vaidotas Žala.
Ultimate: Serradori surpreende, Al‑Attiyah domina e o pelotão estilhaça-se

A categoria Ultimate viveu um dos dias mais dramáticos deste Dakar. Mathieu Serradori assinou uma vitória brilhante, fruto de uma combinação rara de navegação limpa, ritmo constante e capacidade de leitura das dunas. O francês, que já tinha surpreendido em 2020, voltou a mostrar que é um predador silencioso: não aparece sempre, mas quando aparece, morde forte. A vitória por mais de seis minutos sobre Nasser Al‑Attiyah não só lhe deu o triunfo na especial como o relançou na luta pelos cinco primeiros da geral.
Mas o grande vencedor estratégico do dia foi Al‑Attiyah. O piloto da Dacia Sandriders, experiente como poucos, transformou uma diferença mínima na véspera numa vantagem superior a 12 minutos. Fê-lo com a frieza habitual, navegando com precisão e evitando erros que destruíram o dia de vários rivais diretos. Henk Lategan ficou sem combustível e ainda errou a navegação; Nani Roma salvou o pódio, mas perdeu tempo; e Sébastien Loeb aproveitou o caos para subir a quarto da geral.
O maior drama, porém, foi o de Mattias Ekström. O sueco, que estava a apenas 11’19’’ do líder no arranque da etapa, ficou parado ao km 97 devido a uma avaria mecânica, depois de ter sido o mais rápido no último ponto intermédio. O seu Dakar virou-se do avesso em minutos.
As declarações dos pilotos ilustram bem a dureza do dia. Eryk Goczal, que abriu a especial, descreveu a etapa como “o dia mais desafiante da minha vida”, explicando que ficou preso três vezes e partiu um braço da direcção: “Foi um dia louco… mas uma grande experiência para atacar amanhã.”
João Ferreira e Filipe Palmeiro também viveram um calvário técnico, com problemas de direção assistida, uma roda partida e múltiplos atascamentos. Ferreira resumiu:
“O nosso Dakar ficou destruído na geral, mas vamos tentar fazer algo bonito nos últimos dias.”
Challenger: vitória arrancada a ferros e contas cada vez mais apertadas

A categoria Challenger viveu uma etapa de enorme intensidade competitiva. Yasir Seaidan liderou praticamente toda a especial, navegando com confiança e impondo um ritmo forte nas dunas sauditas. No entanto, Paul Spierings, que vinha a recuperar terreno desde o início, lançou um ataque final devastador e roubou-lhe a vitória nos últimos quilómetros. O holandês venceu por 2’50’’ e assinou a sua terceira vitória da temporada.
Nicolás Cavigliasso e Kevin Benavides, ambos em Taurus, mantiveram-se próximos, mas sem capacidade para disputar o triunfo. A regularidade continua a ser a chave nesta categoria, onde as diferenças raramente ultrapassam os cinco minutos entre os primeiros.
O líder da geral, Pau Navarro, viveu um dia mais complicado. Perdeu 14 minutos para Spierings e ainda arrisca receber uma penalização de 12 minutos por atraso na partida. Se confirmada, a vantagem sobre Seaidan pode reduzir-se para apenas 18 minutos — um cenário que promete um duelo explosivo nas últimas etapas.
SSV: Polaris em modo rolo compressor e Heger cada vez mais inalcançável

A categoria SSV voltou a ser dominada pela Loeb FrayMédia Motorsport – RZR Factory. Brock Heger venceu a etapa e Xavier de Soultrait foi segundo, numa demonstração clara da superioridade dos Polaris nas etapas rápidas e técnicas. O mais curioso é que os dois pilotos são os vencedores das duas últimas edições do Dakar na categoria — e hoje mostraram porquê.
Heger, apesar de penalizações acumuladas, reforçou a liderança geral e já leva mais de uma hora de vantagem sobre Kyle Chaney. A consistência do americano tem sido notável: sete dias consecutivos na liderança e cinco vitórias em etapas.
De Soultrait, por sua vez, subiu ao terceiro lugar da geral, beneficiando dos problemas de João Monteiro, que perdeu mais de 1h30 e caiu para quinto. O objectivo da equipa — colocar dois Polaris no pódio — está agora mais perto do que nunca.
Stock: Baciuška imparável e Defender em hegemonia absoluta

Na categoria Stock, Rokas Baciuška continua a escrever um Dakar quase perfeito. O lituano venceu a terceira etapa consecutiva e já soma cinco triunfos na edição de 2026. A Defender Rally voltou a monopolizar o pódio da etapa, reforçando uma hegemonia que só foi interrompida em três das dez etapas disputadas.
Baciuška lidera agora com mais de 3h30 sobre a sua companheira de equipa, Sara Price, que também tem feito um Dakar sólido e sem erros graves. Ronald Basso mantém o terceiro lugar, mas já está a mais de cinco horas do líder.
A categoria, que deveria ser a mais equilibrada por definição técnica, tornou-se um território dominado pela Defender — e Baciuška parece caminhar para um triunfo histórico.
Truck: Loprais vence, Žala assume o comando e Van den Brink desaba

A categoria Truck viveu um dos momentos mais dramáticos do dia. Aleš Loprais venceu a etapa com autoridade, seguido por Vaidotas Žala, ambos em Iveco PowerStar da Team de Rooy. A dupla checa-lituana voltou a mostrar que está um passo à frente da concorrência em ritmo puro.
Mas o grande acontecimento foi o colapso de Mitchel van den Brink. O jovem holandês, que liderava com mais de meia hora, partiu um veio de transmissão ao km 16 e voltou a ficar preso na areia mais tarde. Teve de ser rebocado por Martin Macík e perdeu mais de uma hora, caindo para terceiro da geral.
Com isto, Žala — navegado pelo português Paulo Fiuza — assumiu a liderança do Dakar, com Loprais a 18’55’’ e Van den Brink a 35’30’’. Kay Huzink e Martin Macík completam o top 5, mas já a mais de duas horas do comando.
A luta pelo título promete ser feroz até ao fim, mas a experiência de Fiuza pode ser decisiva nos dias que restam.
Equipas portuguesas: resiliência, dureza e liderança histórica nos camiões
A presença portuguesa voltou a marcar a etapa, não apenas pela resiliência demonstrada nas viaturas ligeiras, mas também pelo papel absolutamente decisivo de Paulo Fiuza, que assumiu a liderança da classificação geral dos camiões como navegador de Vaidotas Žala — um feito histórico para Portugal numa das categorias mais duras do Dakar.

Entre os carros, João Ferreira e Filipe Palmeiro viveram duas jornadas de maratona particularmente duras, mas mostraram a fibra competitiva que os caracteriza. Ferreira descreveu a etapa com franqueza, sublinhando a dureza das dunas e os incidentes que comprometeram o resultado: “Ontem, no pó, a 30 km/h, batemos numa pedra enorme e partimos a roda. Hoje voltámos a ter dificuldades nas dunas… o nosso Dakar ficou destruído na geral, mas vamos tentar fazer algo bonito nos últimos dias.”
O navegador Filipe Palmeiro reforçou a dimensão do desafio, revelando o desgaste acumulado: “Foram dois dias muito duros. Perdemos mais de duas horas e meia com problemas de direção assistida e depois com uma roda partida. Hoje a navegação foi complicada, mas amanhã voltamos a atacar.”
Também Maria Gameiro, acompanhada por Rosa Romero no MINI da X‑Raid, completou mais uma etapa extremamente exigente. A navegadora espanhola destacou a dureza das últimas 48 horas e o esforço conjunto da dupla: “Foram dois dias muito difíceis. Hoje tivemos mais de 200 km de dunas duras e ficámos presos três vezes, mas estamos felizes por chegar ao fim.”

Mas o maior motivo de orgulho português veio dos camiões. Paulo Fiuza, navegador de Vaidotas Žala no Iveco PowerStar da Team de Rooy, assumiu a liderança geral após a 10.ª etapa, beneficiando dos problemas de Mitchel van den Brink. A experiência e precisão de Fiuza foram determinantes numa etapa onde a navegação foi crítica e onde muitos concorrentes se perderam ou ficaram atolados. O navegador português está agora em posição privilegiada para lutar pela vitória absoluta — algo sem precedentes para Portugal na categoria Truck e um marco que reforça a qualidade dos navegadores nacionais no panorama mundial.
Etapa 11 – Bisha › Al Henakiyah

A etapa 11, que amanhã levará o Dakar de Bisha a Al Henakiyah, promete ser menos brutal em termos de terreno, mas extremamente traiçoeira do ponto de vista da navegação. São 882 km no total, com 347 km cronometrados, num traçado que não apresenta grandes obstáculos físicos, mas que se transforma num verdadeiro labirinto de pistas rápidas, intersecções e bifurcações que obrigam a uma leitura constante e precisa do roadbook. É uma etapa de transição apenas no papel: na prática, qualquer hesitação pode custar minutos preciosos, sobretudo agora que a corrida entra na sua fase decisiva. A velocidade será tentadora, mas a exactidão será determinante — quem conseguir equilibrar ambas poderá ganhar posições importantes antes da aproximação final a Yanbu, enquanto um simples erro de trajectória pode comprometer dias inteiros de trabalho.

Classificação geral após etapa 10


