O Dakar 2026 encerrou com uma das edições mais compactas e imprevisíveis da última década, marcada por duelos directos entre construtores, reviravoltas estratégicas e um nível de competitividade que manteve a classificação geral em aberto até aos últimos quilómetros. A vitória final de Nasser Al‑Attiyah (The Dacia Sandriders) confirmou a consistência do qatari ao longo das 13 etapas, mas o destaque repartiu‑se por vários protagonistas — entre eles Paulo Fiuza, cuja prestação sólida e decisiva ao lado de Vaidotas Zala reforçou o estatuto do navegador português como um dos mais fiáveis do pelotão mundial.

A luta pelo topo: Al‑Attiyah, Roma, Ekström e Loeb num fio de areia
A classificação geral final mostra um Dakar decidido por margens mínimas entre os quatro primeiros. Nasser Al‑Attiyah fechou com 48h56m53s, segurando a liderança com apenas 2m40s de vantagem acumulada — um detalhe quase simbólico numa prova de quase 50 horas ao cronómetro. O qatari resumiu a sua abordagem com a frieza habitual: “Este Dakar não se ganha num dia. Ganha‑se evitando erros.”
Logo atrás, Nani Roma, no seu regresso pleno à elite após o longo processo de recuperação oncológica, assinou uma das histórias mais emocionantes da edição. O espanhol da Ford Racing terminou a 9m42s, reforçando a competitividade do novo projeto da marca americana. Roma não escondeu a emoção: “Este resultado é mais do que um pódio. É uma vitória pessoal.”

A Ford, aliás, colocou dois carros no top‑5, com Mattias Ekström a fechar em terceiro, apenas 14m33s atrás do líder. O sueco, cada vez mais adaptado ao ritmo do rally‑raid, mostrou velocidade pura e uma leitura de terreno que o coloca definitivamente entre os favoritos para 2027.
Sébastien Loeb, por sua vez, voltou a ser protagonista. O francês da Dacia Sandriders terminou em quarto, a 15m10s, depois de uma edição marcada por ataques cirúrgicos e alguns contratempos mecânicos. Loeb foi direto: “Fizemos tudo o que podíamos. Faltou um pouco de sorte.”
Carlos Sainz fechou o top‑5, penalizado por problemas acumulados e por uma penalização de 17m20s que condicionou a luta pelo pódio. Ainda assim, o espanhol mostrou que continua a ser um estratega de topo, capaz de gerir ritmos e recuperar tempo quando necessário.
Logo atrás, Mathieu Serradori voltou a ser o melhor dos independentes, levando o Century Racing Factory Team ao sexto posto da geral. A sua regularidade — apenas 45m02s de atraso — é um testemunho da maturidade competitiva da estrutura sul‑africana.
A armada Toyota: um Dakar aquém das expectativas, salvo pelos lampejos de Lategan e pela resiliência de João Ferreira
A Toyota Gazoo Racing entrou em 2026 com ambições legítimas de lutar pela vitória, mas a edição acabou por ficar aquém do esperado para a marca japonesa. Ainda assim, houve momentos de verdadeira competitividade — sobretudo graças a Henk Lategan, que chegou a liderar o Dakar e mostrou velocidade para incomodar os favoritos. O sul‑africano foi, durante vários dias, o rosto da esperança da Toyota, até problemas mecânicos e etapas menos felizes o afastarem da luta pelo pódio.
Outro ponto positivo foi a prestação do português João Ferreira, navegado por Filipe Palmeiro, que terminou num sólido 18.º lugar da geral apesar de uma sucessão de furos que o perseguiu ao longo da prova. Esses incidentes, repetidos em várias etapas, impediram‑no de transformar o bom ritmo demonstrado em resultados mais expressivos. Ainda assim, Ferreira manteve uma abordagem madura e consistente, reforçando a sua afirmação entre os pilotos mais completos da nova geração.

Já Toby Price terminou como o melhor Toyota, em oitavo, num Dakar onde lhe faltou o ritmo necessário para disputar os lugares cimeiros. Seth Quintero, apontado como aposta de futuro, viu a sua classificação comprometida por penalizações e pequenos erros, enquanto Saood Variawa completou o lote da frente sem nunca ameaçar verdadeiramente os líderes.
No balanço final, a Toyota sai desta edição com a sensação de que tinha potencial para muito mais — mas também com a certeza de que o ritmo de Lategan e a resiliência de João Ferreira são pilares importantes para reconstruir ambições em 2027.
Os vencedores das categorias Challenger, SSV , Stock e Truck
Nas categorias secundárias, o Dakar 2026 também coroou desempenhos de grande nível. Na Challenger, a vitória pertenceu à dupla espanhola Pau Navarro / Jan Rosa (n.º 336), que dominou a classe com ritmo forte e uma gestão exemplar das etapas mais técnicas. Nos SSV, o triunfo foi para os norte‑americanos Brock Heger / Max Eddy (n.º 401), sempre rápidos e consistentes, impondo um andamento que deixou pouca margem aos adversários. Já na categoria Stock, o lituano Rokas Baciuska, navegado pelo espanhol Oriol Vidal (n.º 502), confirmou o favoritismo e levou a melhor após uma prova marcada pela regularidade. Nos Camiões, a vitória foi para a formação de Vaidotas Zala / Paulo Fiuza / Max Van Grol (n.º 604), num triunfo histórico que colocou novamente Portugal no topo do Dakar.
Os portugueses em destaque: um Dakar de vitórias, resiliência e afirmação internacional

A participação portuguesa no Dakar 2026 voltou a demonstrar a força e maturidade do contingente nacional, mas este ano com um feito histórico: Paulo Fiuza sagrou‑se vencedor do Dakar na categoria de Camiões, navegando o lituano Vaidotas Zala. A dupla assinou uma prova de enorme consistência, navegando sempre no topo e resistindo às armadilhas do deserto com a frieza que caracteriza os grandes campeões. Para Fiuza, um dos navegadores mais respeitados do pelotão mundial, este triunfo representa a consagração de uma carreira construída sobre precisão, leitura de terreno e uma capacidade rara de gerir pressão em momentos decisivos.

Entre os pilotos, João Ferreira, acompanhado por Filipe Palmeiro, completou um Dakar de grande qualidade, terminando em 18.º da geral. O resultado poderia ter sido ainda mais expressivo não fossem os inúmeros furos que o perseguiram ao longo da prova, retirando‑lhe minutos preciosos em etapas onde tinha ritmo para lutar pelo top‑15. Ainda assim, Ferreira demonstrou maturidade competitiva e uma evolução clara, reforçando a sua posição como um dos nomes mais promissores do rally‑raid europeu.

Outro nome português que merecia um desfecho diferente foi Gonçalo Guerreiro, que vinha a realizar um Dakar notável na categoria SSV. Sempre rápido, sempre consistente, sempre dentro do grupo que discutia o triunfo, viu a sua prova terminar abruptamente após ser albarroado por outro concorrente, num incidente que o obrigou ao abandono. Até então, Guerreiro mostrara ritmo para lutar pela vitória da categoria, deixando no ar a sensação de que o deserto lhe roubou uma oportunidade legítima de brilhar. A sua postura após o abandono, serena e desportiva, foi amplamente elogiada no paddock.

Também Hélder Rodrigues voltou a escrever mais uma página de regularidade e fiabilidade na sua carreira, ao completar o 13.º Dakar consecutivo sem nunca ter desistido. Num pelotão onde a taxa de abandono continua elevada, a longevidade competitiva de Hélder é um marco raro e profundamente respeitado. A sua experiência, serenidade e capacidade de gestão continuam a ser exemplo para as gerações mais jovens.
Pedro Gonçalves e Hugo Magalhães concluíram em 54.º, num Dakar de aprendizagem e superação, enquanto Maria Gameiro, ao lado de Rosa Romero, fechou em 68.º e levando a taça da primeira equipa 100% feminina, consolidando a sua presença entre as pilotos mais consistentes do pelotão. Já Rui Carneiro e Fausto Mota, apesar de penalizações pesadas, conseguiram levar a sua máquina até ao fim — um feito que, no Dakar, vale tanto quanto um top‑20. Carneiro resumiu: “Este Dakar ensinou‑nos mais do que qualquer outro.”

No conjunto, os portugueses voltaram a mostrar que, mesmo sem estruturas gigantes, têm talento, disciplina e resistência para enfrentar o deserto ao mais alto nível — e que, em 2026, Portugal voltou a subir ao lugar mais alto do pódio, com várias histórias de coragem a merecerem ser contadas.
A meio da tabela: regularidade, penalizações e batalhas internas
A classificação geral mostra um pelotão intermédio extremamente compacto, onde diferenças de minutos separaram dezenas de posições. Equipas como a MD Rallye Sport, Overdrive Racing, BBR Motorsport e Buggyra ZM Racing alternaram entre dias de glória e dias de sobrevivência, num Dakar onde a navegação voltou a ser decisiva.
Penalizações pesadas — algumas superiores a uma hora — moldaram profundamente a classificação. Casos como Michal Goczal, Yongming Tao ou Martin Soltys mostram como a gestão de velocidade, limites e zonas de neutralização continua a ser um dos maiores desafios da prova.
Os sobreviventes: o Dakar que nunca perdoa
A parte final da tabela é um retrato fiel da dureza extrema da edição de 2026. Tempos acumulados superiores a 150 horas, penalizações de dezenas de horas e etapas concluídas em modo de pura resistência mostram que, para muitos, o objetivo não era lutar por posições — era simplesmente chegar ao fim.
Nomes como Hervé Guillaume, Po Tian, Hunter Miller ou Tomas Tomecek representam o espírito original do Dakar: a aventura acima do resultado.
Conclusão: um Dakar de margens mínimas e histórias gigantes
O Dakar 2026 ficará marcado pela competitividade feroz, pela afirmação de novos projetos — como a Ford Racing — e pela consolidação da Dacia Sandriders como força dominante. Mas ficará também pelas histórias humanas: o regresso de Nani Roma, a resiliência de Paulo Fiuza, a consistência de João Ferreira, a luta de tantos privados que transformam o Dakar num épico anual.
No fim, como sempre, o deserto decidiu — e decidiu por segundos, não por horas.


