Dobradinha da Toyota decidida por 2,2 segundos, capotamento de Rúben Rodrigues e liderança do campeonato reduzida a seis pontos
Pedro Almeida e António Costa venceram o Rallye Casinos do Algarve, sétima de nove jornadas do Campeonato de Portugal de Ralis, num final de prova de grande tensão. O piloto de Famalicão, ao volante do Toyota GR Yaris Rally2, só passou para a frente na Power Stage, depois de ter perdido a liderança para o colega de equipa Rafael Rêgo a uma classificativa do fim. Foi a segunda vitória da época de Almeida e a dobradinha da Toyota Gazoo Racing Caetano Portugal, que também levou Rêgo e Nuno Mota Ribeiro ao segundo lugar, a 2,2 segundos. Armindo Araújo (Skoda Fabia RS Rally2) fechou o pódio, a 19,5 segundos.

O resultado ganha ainda mais peso pelo que aconteceu ao líder do campeonato. Rúben Rodrigues e Rui Raimundo capotaram o Toyota GR Yaris Rally2 na quarta classificativa e desistiram, interrompendo uma série de quatro vitórias e um segundo lugar nas cinco provas anteriores. Rodrigues mantém o comando do CPR, mas com apenas seis pontos de vantagem sobre Almeida (125 contra 119).
Uma luta aberta até ao fim
O Algarve apresentava-se como um dos ralis mais completos do ano. Eram 68 equipas inscritas, 22 delas com carros Rally2, para oito especiais e 119,47 quilómetros cronometrados, em terra rápida e exigente, considerada das melhores do país. A temperatura elevada acrescentou dureza a um fim de semana já de si desgastante.
Almeida entrou forte. Foi o mais rápido no shakedown, venceu a primeira especial e assumiu a liderança, que manteve no fim da primeira etapa, ainda que por uma margem curta. Armindo Araújo estava a 2,3 segundos, o estreante Luís Cidade a 5,6 e Rúben Rodrigues a 6,0, o que dá a medida de um rali que ninguém controlava. No segundo dia, depois da saída de estrada de Rodrigues, o piloto da Toyota consolidou a vantagem durante a manhã e entrou na parte decisiva da prova com 17,9 segundos de avanço sobre os perseguidores mais directos.
A tarde mudou tudo. Almeida sofreu um furo e perdeu 33 segundos, e Rafael Rêgo aproveitou. O jovem piloto venceu a PEC6 e subiu ao segundo lugar, a 4,7 segundos do líder. Na PEC7 voltou a ser mais rápido do que o colega e passou para a frente por apenas dois décimos de segundo.
A decisão ficou para os 11,27 quilómetros da Power Stage, onde Almeida e Costa responderam à pressão, foram mais rápidos do que Rêgo e Mota Ribeiro e garantiram a vitória. “Foi um rali muito disputado e intenso. O nosso objectivo era vencer para continuar na luta pelo campeonato e estou muito satisfeito por termos cumprido o nosso plano”, afirmou Almeida. O piloto explicou que, apesar do furo, a equipa conseguiu recuperar e chegar ao triunfo na última classificativa.
Rêgo, a grande figura

Se Almeida ganhou o rali, Rafael Rêgo foi uma das grandes histórias da prova. A dupla subiu de rendimento na tarde de sábado, venceu as duas classificativas anteriores à Power Stage e chegou à última especial na liderança. O segundo lugar deu-lhe o primeiro pódio no CPR. “Conseguir o meu primeiro pódio no CPR, ainda por cima no Rallye Casinos do Algarve, tem um significado enorme. Temos trabalhado muito ao longo de toda a época, aprendido em cada quilómetro e sentido uma evolução constante”, disse.
Armindo Araújo e as contrariedades

Armindo Araújo e Luís Ramalho lutaram pela vitória desde o início, mas a tarde também lhes trouxe problemas. “Entrou ar para a admissão do nosso carro, numa zona com terra mais solta, e fizemos quase metade da especial sem potência no motor. Na especial seguinte, foi um furo que ditou a perda de segundos que nos colocaram de imediato fora da discussão pela vitória”, explicou o piloto de Santo Tirso. Mesmo assim, saiu satisfeito com um rali “muito bem disputado”, elogiou Almeida e Costa e destacou a força da nova geração: “Há uma geração de jovens pilotos muito forte e tem sido muito bom discutir as vitórias com eles.”
Fontes e Teodósio: o duelo atrás do pódio

Logo atrás do pódio, José Pedro Fontes e Inês Ponte foram quartos, a 45,1 segundos, com o Lancia Ypsilon Rally2 HF Integrale. O piloto, que lidera o Masters do CPR, chegava ao Algarve depois do quarto lugar no Rali da Água e de três provas em asfalto, e sabia que o regresso à terra exigia nova adaptação. Começou discreto: era nono no final da primeira etapa, a 19,8 segundos, mas foi crescendo, subiu de nono a quarto e fechou a prova a vencer a Power Stage de São Marcos da Serra, o que lhe valeu três pontos extra. “Fiz um troço limpo, normal, como fiz os outros”, explicou o piloto. Antes da prova, Fontes tinha defendido que o Lancia “tem andamento para lutar pelos lugares da frente”. O quarto lugar confirma-o em parte, ainda que o carro italiano nunca tenha entrado verdadeiramente na discussão pela vitória e continue à espera do primeiro triunfo.

Ricardo Teodósio e José Teixeira, por seu lado, jogavam em casa. O tricampeão nacional, de Albufeira, tinha dito na antevisão que correr no Algarve é “sempre muito especial” e que o objectivo era lutar por um lugar no pódio. Ao fim da primeira etapa estava em sétimo, a 14,9 segundos, mas não conseguiu manter o ritmo dos da frente e acabou em sexto, a 1.14,4 do vencedor. O resultado deixa-o em terceiro no campeonato, com 85 pontos, embora com Armindo Araújo (84) e Fontes (82) colados. Este é o primeiro ano do piloto com o Citroën C3 Rally2, depois de uma temporada de adaptação a um carro novo.
Henriques cresce, Lopes tropeça

Gonçalo Henriques foi quinto no Hyundai i20 N Rally2, numa prova de trás para a frente. A Hyundai Portugal tinha como prioridade terminar, acumular quilómetros em terra e recuperar confiança, depois de dois ralis difíceis. “Foi um rali sempre em crescendo. Fizemos praticamente tudo aquilo a que nos propusemos, que era tentar voltar ao nosso ritmo”, disse Henriques, que vê no resultado “confiança e alento” para o que falta do campeonato.

Hugo Lopes e Magda Oliveira terminaram em décimo, depois de um furo que lhes custou quase um minuto e os obrigou a gerir os pneus. Ainda assinaram o terceiro melhor tempo da Power Stage. “Tendo em conta a forma como comecei este rali e como o terminei, estou muito feliz com a nossa evolução”, afirmou Lopes.
ARC Sport: um fim de semana de contrastes

Para a ARC Sport, o rali teve dois lados. Rúben Rodrigues, que a equipa prepara e assiste, lamentou o desfecho: “Só dependemos de nós e as contas ainda estão para ser feitas nas duas últimas provas do campeonato”, disse, admitindo que “talvez devido a um exagero” da dupla a prova terminou cedo. A equipa vai “continuar a apontar para a conquista do título”. Augusto Ramiro, responsável da estrutura, reforçou a mensagem: “Foi uma pena, mas estamos na liderança do campeonato e está tudo em aberto.”

A estrutura teve ainda dois regressos e duas estreias. Ernesto Cunha, que voltou ao CPR depois de uma pausa deliberada, estreou António Coelho como navegador e o Skoda Fabia RS Rally2. Terminou em oitavo, a 1.49,0 do vencedor, mas sem pontuar. “Foi um bom regresso aos pisos de terra. Gostei do traçado e só o muito calor provocou alguma quebra física”, disse. Este ano, só tem planeado o Rallye Vidreiro, em asfalto, que será “mais um teste” com o novo carro.

Ricardo Sousa e Luís Marques, também de Skoda Fabia RS Rally2, estrearam-se em terra com um carro desta categoria e foram 12.os. “Foi a primeira vez com o carro em pisos de terra e o rali serviu essencialmente para ir aprendendo. Adorei a experiência, embora precise de mais testes”, afirmou o piloto, que pensa voltar no Vidreiro. Paulo Neto e Carlos Magalhães terminaram em 14.º, dentro do previsto. O piloto queixou-se do calor e de perder “um segundo por quilómetro”, e pretende fazer os dois ralis que faltam.
Abandonos e estreias
Ricardo Filipe e Filipe Carvalho saíram de estrada na penúltima classificativa e desistiram. “Andámos depressa e são coisas que acontecem nos ralis”, comentou o piloto, que admite que o Skoda ficou “maltratado” e que ainda não sabe quando regressa. Pedro Meireles abandonou quando era décimo, com um problema eletrónico, e Guilherme Meireles ficou com o carro atolado depois de receber sinalética relativa ao acidente de Filipe.

Entre os pilotos que não pontuam para o campeonato, o destaque foi Luís Cidade, que se estreou no CPR com o Toyota GR Yaris Rally2 da Racing 4You e terminou em sétimo, a menos de 90 segundos do vencedor. Esteve em terceiro no final da primeira etapa e por duas vezes entre os três mais rápidos numa especial. “Estamos neste final de CPR acima de tudo para preparar 2027”, explicou o piloto de Matosinhos, ao lado de Jorge Carvalho.
Nas duas rodas motrizes, o domínio coube a Pedro Câmara (Peugeot 208 Rally4), vencedor também no Júnior. Atrás dele, João Rodrigues, líder destacado do CPR 2RM com 167 pontos, defendeu o segundo lugar do assalto de Afonso Santos, que acabou em terceiro.
O que esperar das duas provas que faltam
Restam duas provas e o título deve decidir-se entre Rúben Rodrigues e Pedro Almeida. A diferença de seis pontos é curta e o regulamento obriga a contas atentas, já que contam os sete melhores resultados em oito participações. Teodósio, Armindo Araújo e Fontes ficam a mais de 30 pontos do líder e só poderão intrometer-se se os dois favoritos voltarem a falhar. A disputa pelo terceiro lugar, essa, está ao rubro, com três pilotos separados por apenas três pontos.
Almeida chega com a moral de uma vitória decisiva e de uma Toyota em grande forma, que reforçou a liderança no campeonato de marcas. Rodrigues continua a mandar nas contas, mas terá de provar que o acidente foi só um tropeço. A presença de Rêgo, agora com o primeiro pódio, junta mais um elemento imprevisível à luta.
A próxima prova é o Rali Seis Cidades do Norte de Portugal, de 23 a 25 de outubro, que conta também para o Europeu de Ralis (ERC) e junta mais concorrência internacional ao lote habitual. O CPR fecha depois com o Rallye Vidreiro Centro de Portugal, em Marinha Grande, a 20 e 21 de novembro, em asfalto. A prova devia abrir a temporada em março, mas foi adiada devido aos estragos da depressão Kristin. Voltará a ser a derradeira decisão do campeonato, como já aconteceu em 2025, quando consagrou Dani Sordo. A mudança de piso, de terra para asfalto, pode alterar a hierarquia entre os favoritos e deixar o título em aberto até à última classificativa.
Nos outros campeonatos, a luta mais incerta é no Júnior, onde Luís Caetano (97 pontos) tem só cinco de avanço sobre Afonso Santos (92), com Pedro Câmara a seguir a 21 pontos.



