A terceira etapa do Dakar 2026 confirmou aquilo que já se adivinhava desde o prólogo: esta edição está a ser uma das mais imprevisíveis, duras e competitivas da última década. A especial de 421 quilómetros até AlUla virou classificações do avesso, destruiu ambições de favoritos e abriu caminho a desempenhos históricos — com Ford a assinar um inédito “Top 5” absoluto, Puck Klaassen a entrar para a história e várias equipas portuguesas a mostrarem resiliência num dia marcado por pedras, pó e uma sucessão interminável de furos.

A grande história do dia pertence à Ford. Mitch Guthrie Jr. venceu a especial com autoridade, 2m27s à frente de Martin Prokop, e assumiu pela primeira vez a liderança absoluta do Dakar na categoria Ultimate. O norte‑americano, já conhecido pelas suas conquistas no Challenger, confirmou a maturidade competitiva ao volante do Raptor T1+, num dia em que muitos rivais sucumbiram aos furos e às armadilhas do terreno.
A proeza maior, porém, foi coletiva: cinco Ford Raptor T1+ ocupam agora as cinco primeiras posições da geral — Guthrie, Prokop, Ekström, Sainz e Roma — algo que não acontecia desde 2007, quando a Volkswagen assinou um feito semelhante na etapa inaugural em Lisboa. A organização sublinhou ainda que Guthrie se tornou apenas o terceiro norte‑americano a liderar a geral do Dakar em carros, juntando‑se a Robby Gordon (2005) e Seth Quintero (2025).
Cristina Gutiérrez também brilhou, igualando o seu melhor resultado na Ultimate com o quinto lugar da etapa, apenas 5m57s atrás de Guthrie. A espanhola subiu a sétima da geral e continua a ser uma das figuras mais consistentes da Dacia Sandriders.
Se Ford sorriu, outros viveram um pesadelo. Seth Quintero, vencedor da etapa anterior, perdeu mais de uma hora devido a múltiplos furos e caiu para fora do Top 20. Guillaume de Mévius, que liderara o Dakar no início, sofreu um golpe ainda mais duro: perdeu quase 1h30 e só conseguiu terminar graças à entreajuda no deserto — primeiro com Lionel Baud, depois com Maria Gameiro, que lhe cedeu uma roda nos quilómetros finais. O belga admitiu: “Acho que estragámos o nosso Dakar hoje. Foi um dia muito difícil de digerir.”
Stock: Peterhansel vence, Baciuška lidera

Na categoria Stock, a Defender Rally continua imparável. Stéphane Peterhansel conquistou a sua primeira vitória na classe, seguido de Rokas Baciuška e Sara Price, completando mais um pódio 100% Defender. Baciuška mantém a liderança da geral, agora com quase meia hora de vantagem sobre Ronald Basso.
Akira Miura, da Toyota Auto Body, viveu um dia dramático: perdeu 4h30 e caiu de segundo para quinto.
Challenger: Puck Klaassen entra para a história

Puck Klaassen foi a grande protagonista da Challenger. A neerlandesa venceu a etapa — a primeira da sua carreira — e tornou‑se apenas a quinta mulher a vencer uma especial no Dakar em carros/SSV, juntando‑se a Jutta Kleinschmidt, Cristina Gutiérrez, Sara Price e Dania Akeel.
A piloto da KTM X‑Bow/G Rally celebrou emocionada:
“Finalmente conseguimos a nossa primeira vitória. Foi um dia limpo, sem furos, sem problemas. Trabalhámos muito o ano inteiro e é bom ver o esforço a dar frutos.”
Com este resultado, Klaassen subiu a segunda da geral, apenas 2m53s atrás do novo líder, o saudita Yasir Seaidan — o primeiro piloto da Arábia Saudita a liderar a Challenger na história do Dakar.
SSV: Brock Heger mantém hegemonia Polaris

Nos SSV, a Loeb FrayMédia Motorsport – RZR Factory continua invicta. Brock Heger venceu a etapa, a quarta vitória consecutiva da equipa, e assumiu a liderança da geral, 43 segundos à frente do português Gonçalo Guerreiro, que voltou a subir ao pódio e reforçou a candidatura à vitória.
Guerreiro destacou: “Aproximámo‑nos muito da liderança. Estamos a 43 segundos e continuamos a acreditar na vitória.”
Alexandre Pinto também brilhou, regressando à liderança do W2RC em igualdade pontual após terminar como o quinto melhor piloto do Mundial na etapa.
Camiões: Paulo Fiuza mantém Top 5

Nos camiões, Mitchel van den Brink venceu a etapa por apenas 1m02s sobre Ales Loprais, mas o destaque português vai para Paulo Fiuza, navegador de Vaidotas Zala no Iveco #601. A dupla terminou em oitavo, a 33m58s do vencedor, e mantém o quinto lugar da geral, a 37m04s da liderança.
Portugueses: um dia duro, mas de grande resiliência
A etapa foi particularmente exigente para as equipas portuguesas, mas todas mostraram capacidade de adaptação e espírito de entreajuda — marca registada do Dakar.

João Ferreira e Filipe Palmeiro sofreram dois furos nos primeiros 130 km e tiveram de gerir pneus até ao fim. Ferreira explicou:
“Foi um dia menos conseguido. Nunca encontrámos o ritmo certo e tivemos de abrandar muito para garantir que chegávamos ao fim.” Palmeiro reforçou “Decidimos atacar só quando era seguro. Perdemos tempo, mas evitámos problemas maiores.”
Hélder Rodrigues, que partira de 134.º da geral, fez uma recuperação notável até ao Top 10 dos SSV, “Finalmente fizemos uma etapa limpa. Passámos muitos camiões e carros e amanhã já partimos no grupo da frente.”
Maria Luís Gameiro viveu um dia de sobrevivência, mas também de solidariedade, “Foi um dia duro, com muito pó e muitas pedras. Adotámos um ritmo conservador e ainda ajudámos o Guillaume De Mévius e o Lionel Baud, cedendo um pneu a cada um. Sem isso não chegariam ao fim.”
Alexandre Pinto, no Top 5 da geral dos SSV, destacou a importância da gestão antes da etapa maratona, “Furámos um pneu e perdemos algum tempo, mas optámos por ser cautelosos. Amanhã começa a maratona e temos de preparar tudo ao detalhe.”
Conclusão: um Dakar imprevisível e mais competitivo do que nunca
A terceira etapa confirmou a tendência desta edição: diferenças curtas, ritmo altíssimo e um nível de competitividade raramente visto. A organização sublinhou que o intervalo entre o líder e o 10.º classificado na Ultimate é de apenas 11m39s — o mais curto desde que o Dakar chegou à Arábia Saudita.
Com a etapa maratona à porta, tudo pode mudar novamente. Mas uma coisa é certa: os portugueses estão bem dentro da luta, resilientes, combativos e cada vez mais protagonistas num Dakar que promete ficar para a história.
Amanhã: Etapa 4 , a primeira maratona vai separar os resistentes dos sobreviventes

Amanhã, o Dakar 2026 entra numa das fases mais delicadas e decisivas da primeira semana: a etapa maratona. O percurso AlUla → AlUla, com 451 km cronometrados, promete ser um teste implacável à resistência mecânica, à inteligência estratégica e, sobretudo, à capacidade de gestão dos pilotos e navegadores.
A especial será disputada em grandes planícies abertas, mas longe de ser simples. O traçado alterna constantemente entre zonas rápidas e sequências de zig‑zags entre colinas, vales e relevos irregulares, obrigando a uma leitura permanente do terreno e a um equilíbrio difícil entre atacar e preservar. Depois de uma terceira etapa marcada por múltiplos furos e danos mecânicos, a prudência será palavra de ordem.
Mas o verdadeiro desafio começa no final da especial. No bivouac de maratona, os concorrentes não terão acesso às equipas de assistência. Apenas tendas, fogueira e refeições básicas estarão disponíveis — um regresso às origens do Dakar, onde a entreajuda entre pilotos volta a ser não só permitida, mas muitas vezes decisiva. Cada equipa terá de cuidar do seu próprio veículo, reparar danos, gerir pneus e preparar o carro, moto, SSV ou camião para a segunda metade da maratona, sem margem para erros.
A etapa 4 será, por isso, um momento-chave para todos os líderes de categoria. Quem arriscar demasiado pode comprometer o rali; quem for demasiado conservador pode perder terreno irrecuperável. A gestão mecânica, a leitura do terreno e a capacidade de evitar furos — que já marcaram profundamente a classificação — serão determinantes

Classificação geral após a 3ª etapa


