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Maria Luís Gameiro: terminar, ajudar, resistir e voltar

Maria Luís Gameiro regressou do Dakar com o troféu feminino, a medalha de Finisher e a sensação de ter cumprido exactamente aquilo que prometera a si própria. “O meu real objectivo era terminar e trazer o troféu feminino para Portugal. E consegui”, diz, com a serenidade de quem sabe que, no Dakar, nada é garantido. Mas a piloto portuguesa não levou apenas ambição para o deserto: levou também um compromisso profundo com a sua equipa, que acabou por marcar toda a prova. “Infelizmente tive um papel muito preponderante porque a equipa precisou várias vezes do meu apoio. Gostaria que não tivessem necessitado, mas estive lá. Isso deixa-me feliz.”

A entreajuda, para Maria, não é um detalhe romântico da prova — é o seu coração. Recorda o dia em que ficou sem marcha atrás, atascada numa duna, sem forma de sair sozinha. “Houve outros pilotos que me ajudaram. E eu também ajudei pessoas de outras equipas. Esse é o verdadeiro espírito do Dakar.” Por isso, quando lhe sugeriram pedir tempo de volta à organização por ter ajudado outro concorrente, recusou. “Vou pedir cinco ou dez minutos para quê? Se estivesse a lutar por um lugar mais cimeiro, talvez. Mas não era o caso.”

Ao fim de duas participações, sente-se parte do ambiente, das rotinas e até das relações silenciosas que se criam no pó. “Sinto-me integrada nas logísticas e sinto que as outras equipas já me conhecem. Já sabem que faço parte daquele mundo.” Fala com especial carinho dos camiões, com quem partilhou quilómetros de poeira e ultrapassagens tensas. “Depois de tantas ultrapassagens, no dia seguinte já não dificultavam tanto. Acho que passei a ter algum respeito por parte de alguns pilotos — já legends do Dakar.”

Entre os muitos momentos marcantes, há um que não esquece: o episódio com um camião, registado em vídeo, que quase comprometeu a prova logo no início. “Pensámos que tínhamos o Dakar comprometido. O pós-camião e termos chegado ao fim desse dia foi muito importante para nós.” Mas o Dakar é feito de altos e baixos, e Maria fala deles com uma lucidez tranquila, como quem já percebeu que a prova é tão mental quanto física.

#248 GAMEIRO Maria Luis (Por), ROMERO Rosa (Spn), X-raid MINI JCW, Mini

A vontade de regressar é clara. “Se me for permitido, estarei lá.” O patrocinador já manifestou abertura, e Maria acredita que pode fazer melhor. “Apesar de ser amadora, acho que tenho capacidade para fazer melhor em termos de classificação geral. Gostava de ter condições mais profissionais.” E explica porquê: “Houve um dia em que furei duas vezes e não tinha ninguém atrás para mim. Tive de andar muito devagar porque sabia que não haveria uma “Maria” atrás para me dar pneus. Quando temos “Marias” atrás, podemos arriscar muito mais.”

A piloto fala também das dificuldades específicas das mulheres no Dakar, sem dramatizar, mas sem suavizar. “Somos diferentes, e é só assumir essa diferença com naturalidade.” Fala do calor, que pesa mais em corpos mais velhos. Fala das questões fisiológicas que podem surgir durante 14 dias de competição extrema. Fala da força necessária para mudar pneus de 50 kg. “É mais difícil para nós do que para equipas com dois homens. Não é uma questão de capacidade, é física.”

A falta de formação mecânica é outro desafio. Maria descreve com humor o episódio da “flor” — um arbusto duro que danificou o carro numa ultrapassagem fora de pista. “Sempre que acelerava, ouvia barulhos. Nenhuma de nós sabia o que era.” Na etapa maratona, sem apoio mecânico, cada ruído era um enigma. “Agora sei que era um rolamento. A Maria de há uma semana atrás não sabia.” E acrescenta: “É o desafio das mecânicas amadoras que nós também abraçamos com entusiasmo.”

#248 GAMEIRO Maria Luis (Por), ROMERO Rosa (Spn), X-raid MINI JCW, Mini

Mas nem tudo é aprendizagem romântica. Maria é crítica em relação às desigualdades competitivas. “Os da frente têm três minutos entre si. Nós temos um minuto ou 30 segundos. Ao fim desse tempo já estamos no pó.” E o pó, no Dakar, é mais do que incómodo: é perigoso. “Aproximamo-nos de SSVs a 170 km/h. Não é bom para ninguém.” Para ela, a segurança deveria ser repensada. “Pelo menos na partida, devíamos ter todos o mesmo ponto de partida.”

A gestora que existe dentro da piloto também viajou para o deserto — e voltou diferente. “A estratégia, o delegar, o trabalhar em equipa… tudo isso é importante. E no Dakar temos de confiar uns nos outros.” A tomada de decisão rápida é outro ponto comum. “Às vezes tomamos a decisão certa, outras vezes a errada. Mas tem de ser tomada.”

No fim, o troféu feminino tem para Maria um significado especial. Não apenas por ser mulher, mas pelas circunstâncias em que foi conquistado: limitações mecânicas, ausência de apoio profissional, desafios físicos, logísticos e emocionais, e a dureza extrema da prova. “Este Dakar foi feito em circunstâncias de desvantagem. Por isso este troféu tem ainda mais valor.”

Maria Luís Gameiro terminou. Ajudou. Superou. Aprendeu. E quer voltar. Porque há provas que não se fazem apenas com um carro — fazem-se com tudo aquilo que somos.