Francisco Barreto e Paulo Fiúza conquistaram este sábado a 40.ª edição da bp Ultimate Baja Portalegre 500, numa corrida de enorme desgaste em que o líder caiu cedo, os candidatos ao campeonato tropeçaram e o sonho de qualquer piloto português ficou finalmente nas mãos de um algarvio.

Sob temperaturas que mais pareciam de Verão, o Toyota Hilux Evo n.º 202, da SVR, cruzou a meta com 5.28.22,0 horas de prova e 3.09,9 minutos de vantagem sobre o Polaris RZR Pro R de Gonçalo Guerreiro e Pablo Moreno. Pedro Carvalho e Romeu Martins, também em Polaris, fecharam o pódio absoluto a 8.00,5 minutos. Dois SSV a fazer companhia a um Ultimate no pódio dizem muito sobre a imprevisibilidade de uma prova que o Automóvel Club de Portugal organizou para a prova rainha do Campeonato de Portugal de Todo-o-Terreno.
Para Francisco Barreto, natural de Vila do Bispo, esta é a primeira vitória na mítica corrida alentejana. Já tinha provado este ano que andava rápido: em Junho venceu a Baja de Itália, prova do FIA World Baja Cup, e continua a ter o Dakar como grande meta. Portalegre, porém, tem outro peso. “Ganhar em Portalegre é o sonho de qualquer piloto português e hoje concretizámo-lo”, disse no final.

A corrida parecia ter outro dono. João Ferreira e Filipe Palmeiro, da Toyota Gazoo Racing, venceram o Prólogo, à frente de Ricardo Porém e de João Ramos, e voltaram a ser os mais rápidos na primeira especial. Lideravam quando a segunda especial, com quase 180 quilómetros, lhes roubou tudo. Logo no arranque, Ferreira saiu de trajectória numa zona de lama muito escorregadia, deixou o carro cair num buraco e danificou a caixa de velocidades ao tentar sair dele. “Foi um erro muito parvo”, lamentou o piloto de Leiria, que mesmo assim tinha uma palavra para o colega de equipa: “Felizmente, o nosso colega Barreto está a liderar a prova, por isso esperamos que termine assim.”
Ferreira não foi o único a ficar pelo caminho. Também João Ramos e Alejandro Martins desistiram na segunda especial, e Tiago Reis, segundo classificado do campeonato à partida, não passou da primeira. No total, 23 equipas abandonaram: duas na primeira especial, onze na segunda e dez na terceira. Chegaram ao fim 40.

Na frente, a liderança passou por várias mãos. Luís Cidade, no Can-Am Maverick R, e Ricardo Porém chegaram a comandar a prova, mas o primeiro teve dificuldades numa travessia de ribeira e perdeu cerca de dez minutos. Barreto, que vinha “a dar tudo e a atacar ao máximo”, saiu da especial na frente da classificação absoluta.
Restava a terceira e última especial, de cerca de 190 quilómetros, e foi aí que o novo líder mostrou nervos de aço. “Partimos na frente, com os nervos à flor da pele e um nó no estômago, mas conseguimos”, confessou. Porém foi o mais rápido, com 2.16.53,8 horas, seguido por Cidade, a 1.25,5 minutos, enquanto Barreto foi apenas o terceiro mais veloz, a 2.06,3 minutos. Chegou e sobrou: bastou gerir a vantagem, e o troféu, garantiu o piloto, “vai para casa”.
A recuperação de Cidade e Valter Cardoso valeu-lhes o quarto lugar da geral, a 8.29,9 minutos. Logo atrás, Daniel Silva e Gonçalo Magalhães (MMP T3 Rally Raid) foram quintos e venceram nos T3. Porém, de Taurus Evo Max, acabou penalizado em dez minutos e caiu para 18.º. Sem essa sanção teria terminado em nono.

No campeonato nacional, a leitura é diferente da classificação absoluta. Barreto não está inscrito no CPTT, pelo que foi Gonçalo Guerreiro quem mais pontos somou em Portalegre. O campeão em título, que falhou a prova de abertura em Beja devido a uma lesão num braço, venceu os T4 e subiu a segundo da geral, com 87 pontos. Luís Cidade mantém a liderança com 101 e Tiago Reis, com 67, cai para terceiro.
Nas restantes categorias, Américo Santos e Jorge Monteiro (Nissan Pathfinder) venceram os T2, e o neerlandês Richard Timmerman, com Lucas Van Geest (Toyota Hilux), foi o melhor dos T8 para o CPTT. Na classificação reservada ao evento nacional, Lino e Fábio Carapeta (Ford Ranger) ganharam, à frente de Johan e Yvet Senders e do próprio Timmerman. Houve ainda festa nas motos Mini Baja, com Francisco Porto Nunes, Manuel Cary e Joshua De Brion no pódio, nos clássicos, com Gustavo Morais e Miguel Mora (Toyota Land Cruiser), e no Troféu UMM, ganho por João Couto e João Santos.

Quem também saiu de Portalegre de sorriso largo foi Fernando Barreiros. O piloto da Isuzu D-Max, com José Sá Pires, venceu os quatro sectores e a classe Stock, somando o quinto triunfo da temporada e a terceira vitória consecutiva, algo inédito na sua carreira. Chegou com uma forte gripe, mas “fomos uns dignos e justos vencedores”, resumiu. A decisão da FIA European Baja Cup, que já conquistou em 2024, fica para a Hungria, de 12 a 15 de Novembro. “Vai ser luta até ao fim”, avisa Sá Pires.
Quanto ao título nacional, faltam duas provas e a luta está longe de resolvida. A primeira é a Baja TT de Castelo Branco, de 30 de Outubro a 1 de Novembro, adiada de Abril por causa das intempéries. É uma prova tradicionalmente técnica e muito selectiva, que costuma premiar quem poupa a mecânica. A segunda é a Baja de Lagos, de 27 a 29 de Novembro, final de temporada tradicionalmente competitivo e decisivo.

Cidade chega às duas últimas provas com 14 pontos de avanço sobre Guerreiro e 34 sobre Reis, mas o regulamento deixa tudo em aberto. Cada vitória vale 25 pontos, mais 3 pelo prólogo e os bónus pelas vitórias nos sectores selectivos. Guerreiro vem a crescer: tem ainda uma prova a menos do que os rivais por causa da lesão e é o mais rápido entre os SSV nas últimas corridas. Cidade já provou que sabe perder minutos e voltar a atacar, mas o Can-Am precisa de aguentar até ao fim. Reis, que desistiu duas vezes na mesma corrida em termos de pontos, precisa quase de um milagre. E há ainda os Ultimate de Ferreira e Barreto, que, mesmo sem poderem fazer do título uma questão pessoal, podem baralhar as contas a qualquer um. Com a época a entrar na recta final, quem terá a cabeça mais fria?
Fotos: Oficais|ACP Motorspot


