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As posições definem-se logo ao terceiro dia

Ainda somente estão percorridos os primeiros 1137 quilómetros cronometrados, mas o certo é que ao terceiro dia as posições definem-se de forma clara: basta dizer que o quarto classificado, Carlos Sainz, já leva mais de meia hora de atraso relativamente ao comandante, Stéphane Peterhansel. Líderes na primeira etapa, Sainz e Lucas Cruz tiveram imensa dificuldade em encontrar um ‘way point’, que os fez perder pelo menos essa meia-hora. Daí que embora recuperar tamanho atraso possa parecer difícil, nada nos diz que num dos próximos dias Peterhansel, Nasser Al-Attiyah – que nesta terceira etapa voltou a sair ganhador – e Matthieu Serradori não encontrem as mesmas dificuldades de orientação e sejam eles a atrasar-se. E quanto aos portugueses presentes neste Rali Dakar 2021, enquanto o ‘motard’ Joaquim Rodrigues perdeu duas posições, a maioria subiu na classificação. Por exemplo, Ricardo Porém e Jorge Monteiro melhoraram seis lugares, depois de levarem o Borward BX7 Evo a ser o 28º mais rápido na etapa…

A terceira etapa foi uma das duas em que o acampamento se repete. Porque o percurso desenvolve-se em redor do mesmo local. Neste caso, a pequena cidade de Wadi Ad-Dawasir, no sudoeste da Arábia Saudita, bem na ponta da enorme província de Riade, a capital deste reino. Curiosamente, é nos arredores de Ad-Dawasir que se encontram as ruínas daquela que foi a capital do primeiro reino da Arábia central. Se recuarmos dois milénios, esta região era então verdejante e abundante em vida, ou não se encontrasse no Delta de três rios, entretanto desaparecidos. Aliás, a palavra Wadi, que precede o nome da actual cidade, significa ‘rio’ em arábico. Hoje, a alta tecnologia está a ser empregue em Wadi Ad-Dawasir, para rentabilizar ao máximo os escassos recursos naturais: a água, captada no subsolo, bem como o sol, estão a permitir transformar a cidade de novo num oásis. E a agricultura renasce no meio do deserto, pintando-o de verde…

Mais de 400 de quilómetros cheios de pedras no caminho

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EM QUATRO DIAS DE PROVA, NASSER AL-ATTIYAH E MATTHIEU BAUMEL JÁ SOMAM TRÊS SUCESSOS. TODAVIA, MESMO DEPOIS DE VENCER A TERCEIRA ETAPA, A DUPLA MAIS FORTE DA TOYOTA AINDA NÃO CONSEGUIU CHEGAR AO COMANDO. MAS AS POSIÇÕES DEFINEM-SE E ESTÃO CLARAMENTE NA DISCUSSÃO DA PRIMAZIA, COMO SE ESPERAVA…

Desenrolada essencialmente num planalto do deserto, a sul do ponto de partida, a terceira etapa levou a caravana a rolar quase sempre entre os 800 e os 1200 metros. E se as imagens que mais encantam os entusiastas mostram grandes extensões de areia e dunas pronunciadas, isso não passa de uma ilusão. A maior parte do percurso seguiu pistas pedregosas, com múltiplas passagens de montanha, lentas, a fazer pensar nos primórdios do todo terreno.

Daí que os furos continuaram, com fartura, tal como os erros de navegação. Como foi o que sucedeu com Carlos Sainz e Lucas Cruz, que andaram mais de meia hora às avessas para descobrir onde estava um ‘way point’, não conseguindo evitar a caída do segundo para o quarto posto. Pela inversa, Nasser Al-Attiyah e Matthieu Baumel mesmo com a desvantagem de abrirem a pista, foram os mais rápidos da jornada, pela segunda vez consecutiva.

E se nas passagens lentas, entre as pedras, a velocidade é, forçosamente, muito reduzida, depois, nas pistas de areia, era bem possível acelerar a fundo. E não foi só Nasser Al-Attiyah que o fez, ao conseguir percorrer os 403 quilómetros em apenas 3 horas, 17 minutos e 39 segundos, estabelecendo uma média de 122 km/h.; os sul-africanos Henk Lategan e Brett Cummings, ficaram a menos de dois minutos e meio de Al-Attiyah. Para muitos, este resultado foi uma surpresa; mas para quem tem acompanhando o campeonato sul-africano, onde este jovem de 26 anos obteve dois títulos consecutivos, em 2019 e 2020, o desempenho de Lategan foi uma confirmação. Ao adiantar-se, como se adiantou, o piloto sul-africano da Toyota ascendeu do 16º ao 7º lugar numa só jornada. A mesma em que Stéphane Peterhansel e Edouard Boulanger levaram o Mini John Cooper Works Buggy a terminar em terceiro, perdendo pouco mais de quatro minutos para Al-Attiyah, mas mantendo a liderança por 5 minutos e 9 segundos. É verdade que ao terceiro dia as posições definem-se um pouco mais, mas insistimos que ainda é prematuro ‘fechar’ a luta…

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O CAMPEÃO SUL-AFRICANO DE TODO TERRENO NOS ÚLTIMOS DOIS ANOS É UM JOVEM DE 26 ANOS QUE COMEÇA A REVELAR-SE FORA DE CASA. NA ESTREIA NO ‘DAKAR’, FOI SEGUNDO NA TERCEIRA ETAPA, COM UMA DAS TOYOTA HILUX OFICIAIS, A SUA EQUIPA DE SEMPRE…

Ricardo Porém e Lourenço Rosa com maiores recuperações

Para a generalidade das equipas portuguesas, ou lituano-portuguesas, em dois casos, esta foi uma jornada mais tranquila. O Borgward EX7 Evo de Ricardo Porém e Jorge Monteiro foi o 28º automóvel mais rápido na etapa – tendo estabelecido uma média de 101 km/h! “Partimos bastante atrás de outros veículos mais lentos, o que não travou um pouco o andamento, para encontrarmos o momento certo de infindáveis ultrapassagens”, justificou Porém, que nesta jornada recuperou seis posições, subindo para o 33º posto absoluto. “E o carro continua saudável, o que nos dá toda a confiança para as próximas etapas”, adianta o piloto.

A Toyota Hilux do lituano Benediktas Vanagas, acompanhado por Filipe Palmeiro, teve uma jornada ainda mais ‘rentável’: graças à 15ª no sector selectivo, a dupla pôde melhorar mais três posições e estão agora no 21º posto absoluto. Precisamente 20 lugares atrás, encontra-se agora a segunda dupla lituano-lusitana, com Gintas Petrus e José Marques, cujo buggy subiu seis posições na classificação.

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O BORGWARD EX7 EVO DE RICARDO PORÉM E JORGE MONTEIRO PROSSEGUE ISENTO DE PROBLEMAS, PERMITINDO À DUPLA DE LEIRIA RECUPERAR POSIÇÕES, ATRÁS DE POSIÇÕES. NESTA TERCEIRA ETAPA, FORAM OS 28º MAIS RÁPIDOS E SUBIRAM MAIS SEIS LUGARES NA CLASSIFICAÇÃO

Autores do 12º melhor tempo na categoria de Veículos Ligeiros, Lourenço Rosa e Joaquim Dias ocupam agora a mesma posição na classificação geral, tendo melhorado quatro lugares face à posição que ocupavam à partida. E se para estes dois as posições definem-se de forma mais positiva, o mesmo sucede com Rui Carneiro e Filipe Serra, que melhoraram substancialmente face à jornada anterior: foram os 26ºs na terceira etapa e adiantaram-se 16 lugares, para ocuparem agora o 33º posto.

Nas motos, em que se registou mais uma troca de comandante, com o norte-americano Skyler Howes, da KTM, a instalar-se na frente, apenas um dos três portugueses avançou na classificação. Foi ele Rui Gonçalves, que levou a Sherpa a rubricar o nono ‘crono’ da jornada, o que bastou para subir três lugares na classificação, para o 22º posto. A Hero de Joaquim Rodrigues ficou no 20º posto e o piloto desceu dois lugares, para 19º. Por fim, Alexandre Azinhais manteve o seu ritmo, determinado em terminar a prova, sem correr riscos: para este piloto, as posições definem-se com tranquilidade e foi 67º na etapa; desceu um lugar na ‘geral’, para o…67º posto.

Texto: Alexandre Correia Fotos: D.R.