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Portugueses brilham na etapa mais veloz do Dakar 2026

A segunda semana do Dakar 2026 abriu com uma etapa fulgurante rumo a Wadi ad-Dawasir, marcada por velocidades de cortar a respiração, reviravoltas dramáticas e desempenhos de enorme consistência entre os principais candidatos ao título. A sétima especial, com quase 460 quilómetros cronometrados, devolveu a Mattias Ekström o protagonismo: o sueco tornou-se o primeiro piloto a repetir uma vitória nesta edição, quebrando a sequência inédita de seis vencedores diferentes nas seis primeiras jornadas.

240 FERREIRA Joao (por), PALMEIRO Filipe (por), Toyota Gazoo Racing, Toyota,

Ekström e Emil Bergkvist, ao volante do Ford Raptor, assinaram um tempo de 3h44m22s, mas o triunfo só ficou garantido nos quilómetros finais. Henk Lategan, que vinha a liderar a especial e a ameaçar seriamente o comando da geral, perdeu tempo precioso na aproximação à meta e viu escapar não só a vitória como a possibilidade de assumir o topo da classificação.

Atrás do sueco, o grande destaque do dia foi português: João Ferreira e Filipe Palmeiro rubricaram uma exibição de enorme maturidade, velocidade e precisão, levando a Toyota Hilux IMT EVO ao segundo lugar da etapa, a apenas 4m27s do vencedor. Mitch Guthrie completou o pódio, seguido de Toby Price e Lucas Moraes, todos separados por escassos segundos numa luta intensa até ao fim.

A reviravolta no topo permitiu a Nasser Al‑Attiyah recuperar o comando da geral. O piloto da Dacia Sandriders, que tinha perdido a liderança nos controlos intermédios, beneficiou das dificuldades de Lategan e fechou o dia com 4m47s de vantagem sobre Ekström. Nani Roma, também em Ford, ocupa agora o terceiro posto, depois de a FIA ter anulado a penalização aplicada ao espanhol na etapa 5.

Ultimate: Ekström repete, Lategan perde tudo no fim

226 EKSTRÖM Mattias (swe), BERGKVIST Emil (swe), Ford M-Sport, Ford

A etapa 7 confirmou a intensidade da luta na categoria Ultimate. Lategan chegou a liderar virtualmente o Dakar, mas o desfecho foi cruel: o sul‑africano cruzou a meta 8m35s atrás de Ekström, caindo para o quarto lugar da geral. Carlos Sainz manteve o quinto posto, enquanto Sébastien Loeb segue em sexto, ainda dentro do grupo de candidatos.

O dia também trouxe sinais positivos para Guillaume de Mévius, que apesar de um furo e muita poeira conseguiu recuperar ritmo: “Foi um dia melhor do que o final da primeira semana. Tivemos um furo no pó, mas decidimos acalmar no fim. Agora queremos atacar todos os dias.”

O seu navegador, Mathieu Baumel, acrescentou com humor: “Amanhã estaremos num bom grupo, com menos pó. Só estou com pouca bateria na prótese, não consigo dobrar o joelho… mas amanhã estaremos bem. Agora é como piratas, sabes?”

Camiões: Žala faz história e aperta a luta pelo pódio

604 ZALA Vaidotas (ltu), FIUZA Paulo (por), VAN GROL Max (ned), NoRDIS De Rooy FPT, Iveco

Na categoria dos camiões, a etapa 7 ficou marcada por um feito histórico: Vaidotas Žala, navegado pelo português Paulo Fiuza, tornou‑se o primeiro piloto a vencer especiais tanto em carros como em camiões no Dakar. O lituano, que já tinha surpreendido em 2020 ao ganhar a primeira especial disputada na Arábia Saudita, assinou agora a sua primeira vitória na classe Truck, superando Aleš Loprais por 1m23s. Mitchel van den Brink, líder da geral, perdeu mais de 12 minutos devido a uma paragem inesperada, mas manteve o comando, embora com margem reduzida. Martin Macík, terceiro na etapa, aproximou‑se do neerlandês e segue agora a 27 minutos, enquanto Žala saltou para o terceiro lugar da geral, empurrando Loprais para fora do pódio provisório. A etapa confirmou que a segunda semana promete uma batalha intensa entre os gigantes do deserto, com diferenças cada vez mais curtas e ritmos surpreendentemente elevados para máquinas de mais de dez toneladas.

Challenger: Kevin Benavides estreia-se a vencer

347 BENAVIDES Kevin (arg), SISTERNA Lisandro (arg), Odyssey by BBR Motorsport, Taurus

Na Challenger, Kevin Benavides escreveu um capítulo especial da sua carreira. O argentino, duas vezes vencedor do Dakar em motos, conquistou a sua primeira vitória em quatro rodas, impondo-se com autoridade e reduzindo a diferença para os líderes.

Pau Navarro mantém o comando da geral, mas Nicolás Cavigliasso aproximou-se perigosamente, ficando agora a menos de três minutos. Lucas Del Rio segue em terceiro, com Yasir Seaidan a recuperar algum terreno depois dos problemas mecânicos da véspera.

SSV: Can‑Am domina, João Monteiro volta ao pódio e Gonçalo Guerreiro aproxima‑se do top 3

406 GONZALEZ FERIOLI Jeremías (arg), RINALDI Gonzalo (arg), Can-Am Factory Team, Can-Am

A etapa 7 foi um festival argentino nas categorias FIA, e nos SSV não foi diferente: Jeremías González Ferioli venceu, seguido por Kyle Chaney e pelo português João Monteiro, todos separados por apenas nove segundos — um final absolutamente frenético. Mas houve mais motivos de orgulho para Portugal. Gonçalo Guerreiro, piloto oficial Polaris e navegado por Maykel Justo, assinou uma exibição de enorme consistência, terminando a especial na quinta posição, a apenas 1m27s do vencedor. Com este resultado, o jovem piloto do bp Ultimate Adventure Team manteve o quinto lugar da geral, reduzindo a diferença para o segundo posto para menos de 25 minutos, consolidando‑se como um dos protagonistas desta edição.

Brock Heger, apesar de terminar em quarto, foi o grande beneficiado do dia: reforçou a liderança da geral para mais de 50 minutos, enquanto Xavier de Soultrait caiu para terceiro após perder mais de 20 minutos.

Helder Rodrigues, também em SSV, descreveu assim o dia:“Foi duro, muito pó, algumas dunas técnicas e bonitas. Apanhámos muitos T1 e duas pistas, mas terminámos sem problemas. Furámos uma vez.”

Stock: Peterhansel vence, Baciuška mantém controlo

500 PETERHANSEL Stéphane (fra), METGE Michaël (fra), Defender Rally, Defender

Na categoria Stock, a Defender Rally continua a dominar por completo. Stéphane Peterhansel conquistou a sua terceira vitória do ano, igualando Sara Price, enquanto Rokas Baciuška manteve a liderança confortável, com mais de 40 minutos de margem.

A luta mais apertada está no terceiro lugar, onde Ronald Basso tenta resistir à aproximação de Price, que já reduziu uma diferença que há uma semana ultrapassava as duas horas.

Equipas portuguesas: consistência, velocidade e presença em todas as frentes

Portugal voltou a marcar presença forte em várias categorias. Para além do brilhante segundo lugar de João Ferreira na Ultimate, a armada lusa destacou‑se também nos SSV, com João Monteiro a subir ao pódio da etapa e Gonçalo Guerreiro a terminar no top 5. Pedro Gonçalves manteve um andamento sólido na Challenger, enquanto Rui Carneiro e João Dias continuam a escalar posições na geral, demonstrando fiabilidade e ritmo competitivo.

O dia trouxe ainda um feito histórico para o país: Paulo Fiuza, navegador de Vaidotas Žala, venceu a etapa dos camiões — tornando‑se mais um português a conquistar uma vitória de etapa neste Dakar 2026, e logo numa categoria onde o talento nacional raramente tem oportunidade de brilhar. A tripla Žala/Fiuza/Grol não só triunfou como entrou para a história ao tornar Žala o primeiro piloto a vencer especiais em carros e camiões.

#248 GAMEIRO Maria Luis (Por), ROMERO Rosa (Spn), X-raid MINI JCW, Mini

Já Maria Luís Gameiro viveu uma das jornadas mais duras da sua participação. A piloto portuguesa enfrentou sérios problemas na caixa de velocidades do MINI JCW T1+ logo ao quilómetro 30, ficando sem marcha‑atrás numa duna e perdendo mais de meia hora à espera de ajuda. A partir daí, a etapa transformou‑se numa prova de sobrevivência: luzes de aviso constantes, temperaturas elevadas no diferencial e a necessidade de gerir mais de 400 km com andamento muito contido. Já perto da chegada, um novo susto — a perda da primeira velocidade — obrigou a dupla a ser empurrada por outros concorrentes para conseguir regressar ao bivouac sem penalizações. Apesar de tudo, Maria e Rosa Romero concluíram a etapa com o 59.º tempo e mantêm o MINI em prova, descendo do 35.º para o 39.º lugar da geral. Num Dakar tão exigente, a resiliência demonstrada foi, por si só, uma vitória moral.

As declarações de Ferreira e Palmeiro ilustram bem o espírito da equipa Toyota Gazoo Racing South Africa, “Foi um dia super-rápido, sempre a 150–170 km/h. A navegação estava muito difícil porque íamos muito depressa, mas correu tudo limpo. Ainda falta muito Dakar.” Disse João Ferreira, enquanto o seu navegador Filipe Palmeiro dizia que “Foi uma etapa muito rápida, com muitas mudanças de direcção. Fizemos segundo e reduzimos tempo aos líderes. Amanhã partimos muito à frente, o que é uma desvantagem, mas temos de continuar a atacar.”

Um Dakar em aberto

A sétima etapa deixou claro que nada está decidido. Ekström mostrou que está em plena forma, Al‑Attiyah recuperou o controlo, Lategan provou que tem velocidade para vencer… mas também que o Dakar não perdoa. Nos SSV, a luta pelo pódio promete ser explosiva, enquanto na Challenger e na Stock os líderes começam a sentir a pressão.

Com várias etapas ainda por disputar e um terreno que promete mais armadilhas, navegação traiçoeira e mudanças súbitas de ritmo, o Dakar 2026 entra agora na sua fase mais imprevisível — e os portugueses estão, mais uma vez, no centro da ação.

Etapa 8: o maior teste de resistência deste Dakar

A oitava etapa, disputada amanhã em formato de grande laço em torno de Wadi ad‑Dawasir, promete ser um dos momentos decisivos deste Dakar 2026. Com 481 km cronometrados — a especial mais longa da edição — e um total de 717 km de percurso, o dia combina zonas rápidas e planas com secções rochosas, passagens por canyons e áreas de vegetação dispersa, exigindo versatilidade técnica e navegação irrepreensível. A extensão da especial, desenhada quase integralmente em redor do bivouac, obriga os pilotos a manter um ritmo elevado enquanto lidam com mudanças constantes de direção e transições de terreno, ao mesmo tempo que gerem o desgaste mecânico num dos desafios mais completos e fisicamente exigentes desta edição

Classificação da 7ª etapa

Classificação após 7ª etapa