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Etapa 8 ao Rubro: Variawa vence por 3 segundos num Dakar cada vez mais apertado

A oitava etapa do Dakar 2026, a mais longa especial cronometrada desta edição, com cerca de 481 quilómetros, ofereceu um dos dias mais intensos e competitivos da prova. Num terreno rápido, variado e exigente, onde a navegação obrigou a precisão absoluta, as diferenças foram mínimas e a classificação geral voltou a apertar de forma histórica. Entre duelos ao segundo, reviravoltas dramáticas e desempenhos de enorme consistência, o Dakar entrou definitivamente na sua fase mais imprevisível.

Ultimate: Variawa vence por 3 segundos num dia épico

213 VARIAWA Saood (rsa), CAZALET François (fra), Toyota Gazoo Racing, Toyota,

A categoria Ultimate viveu uma das chegadas mais renhidas deste século. O jovem sul‑africano Saood Variawa, de apenas 20 anos, colega de equipa do português João Ferreira,  voltou a confirmar o estatuto de fenómeno do rally‑raid actual. Partindo de 26.º para a especial, o piloto da Toyota Gazoo Racing SA foi recuperando posições a cada checkpoint até conquistar a vitória por uns incríveis 3 segundos sobre o compatriota Henk Lategan.

“Foi uma etapa muito longa, cerca de 470 quilómetros. Começámos atrás, com muito pó, mas conseguimos ultrapassar sete ou oito carros. Acho que poderíamos ter sido ainda mais rápidos, mas mesmo assim vencemos por três segundos. É a minha segunda vitória e, curiosamente, ambas antes de maratonas. Amanhã abrimos a especial — vamos ver como corre”, afirmou Variawa.

Lategan, que chegou a acreditar que tinha vencido, somou um segundo lugar precioso, reduzindo ligeiramente a diferença para o líder da geral, Nasser Al‑Attiyah, que terminou o dia em quinto, a 1m16s do vencedor. O sul‑africano subiu ao terceiro lugar absoluto, ultrapassando Nani Roma, e parte agora para a etapa maratona a 6m08s do topo.

O sueco Mattias Ekström, ao volante do Ford Raptor, completou o pódio da etapa a 29 segundos, reforçando o segundo lugar da geral, agora a apenas 4 minutos de Al‑Attiyah. A consistência do piloto da Ford Racing tem sido um dos grandes destaques da prova.

Entre os destaques do dia esteve também o português João Ferreira, que apesar de ter sido apenas 17.º na etapa, conseguiu reentrar no top‑10 da classificação geral, ocupando agora o décimo lugar, a 35m08s de Nasser Al‑Attiyah — um resultado de enorme consistência numa categoria onde os dez primeiros da etapa ficaram separados por menos de quatro minutos.

A classificação do dia mostrou o equilíbrio absoluto da categoria: os dez primeiros ficaram separados por menos de quatro minutos, algo raríssimo numa especial tão longa.

Challenger: Duelo feminino histórico e Klaassen no topo

302 KLAASSEN Puck (ned), SANZ Augusto (arg), KTM X-BOW POWERED BY G RALLY TEAM, Grallyteam

Na Challenger, a etapa 8 entrou para a história do Dakar: pela primeira vez, duas mulheres ocuparam os dois primeiros lugares de uma especial nesta categoria. A neerlandesa Puck Klaassen venceu por apenas 3 segundos a saudita Dania Akeel, num duelo decidido nos últimos quilómetros.

Klaassen, que já tinha vencido a etapa 3, assinou assim o seu segundo triunfo na prova. A espanhola Pau Navarro manteve a liderança da geral, mas o argentino Nicolás Cavigliasso voltou a recuperar tempo e está agora a apenas 2m02s, prometendo uma segunda semana explosiva.

SSV: Heger domina, Monteiro brilha e drama para De Soultrait

302 KLAASSEN Puck (ned), SANZ Augusto (arg), KTM X-BOW POWERED BY G RALLY TEAM, Grallyteam

A categoria SSV viveu um dia de emoções fortes. O norte‑americano Brock Heger conquistou a sua quarta vitória nesta edição, resistindo à pressão constante de Jeremías González Ferioli, que terminou a 46 segundos. João Monteiro, com Nuno Morais, assinou mais uma exibição sólida e fechou o pódio da etapa, a 1m33s.

Heger reforçou a liderança da geral, onde já dispõe de quase 47 minutos de vantagem. Monteiro subiu ao 2.º lugar absoluto, ultrapassando Kyle Chaney.

Mas o grande drama do dia foi vivido por Xavier de Soultrait. O francês voltou a enfrentar problemas mecânicos e perdeu mais de 40 minutos após um toque com Bruno Saby, caindo para fora do pódio da geral. “Temos de parar com o azar — já pagámos o suficiente ao Dakar. Agora só queremos que as coisas boas aconteçam”, desabafou.

Stock: Baciuska soma a terceira vitória e Price mantém a pressão

502 BACIUSKA Rokas (ltu), VIDAL Oriol (esp), Defender Rally, Defender,

Na categoria Stock, o dia voltou a sorrir a Rokas Baciuska, que conquistou a sua terceira vitória nesta edição do Dakar, impondo um ritmo forte desde os primeiros quilómetros e terminando a especial com 1m44s de vantagem sobre Sara Price, enquanto Stéphane Peterhansel, que discutia o triunfo, ficou parado após 282 km devido a problemas mecânicos. A consistência de Baciuska permitiu-lhe reforçar a liderança da geral, numa categoria onde a fiabilidade tem sido tão decisiva quanto a velocidade. Ronald Basso e Akira Miura, da Toyota Auto Body, mantiveram-se na luta pelos lugares do pódio da etapa, beneficiando das dificuldades de vários adversários diretos. A categoria Stock continua a ser marcada por grandes oscilações e por uma gestão mecânica extremamente exigente, especialmente numa etapa longa e rápida como a de hoje.

Camiões: Van den Brink imparável, Zala resiste

601 VAN DEN BRINK Mitchel (ned), VAN HEUN Bart (ned), VAN DE POL Jarno (ned), Eurol Rallysport, Iveco

Nos camiões, Mitchel van den Brink voltou a dominar e conquistou a sua terceira vitória nesta edição, reforçando a liderança da geral. O neerlandês bateu Vaidotas Zala por 5m31s, ampliando a vantagem para 38m33s. Martin Macík caiu para terceiro, a mais de 50 minutos, enquanto Aleš Loprais segue em quarto, já a mais de uma hora.

Equipas portuguesas: João Ferreira reentra no top‑10, acidente retira Guerreiro e segunda semana positiva para vários lusos

O dia foi particularmente relevante para as equipas portuguesas. Nos Ultimate, João Ferreira e Filipe Palmeiro voltaram a mostrar enorme maturidade competitiva. Apesar de um furo logo no início da especial, a dupla recuperou tempo e terminou em 17.º, regressando ao top‑10 da classificação geral, ocupando agora o décimo lugar, a 35m08s de Nasser Al‑Attiyah. “Foi uma etapa muito difícil. Perdemos tempo com um furo logo no início, mas conseguimos minimizar as perdas. A entrada no top‑10 é uma boa recompensa. Amanhã começa a maratona e chegar ao final de quarta‑feira é fundamental para continuarmos a lutar pelos nossos objetivos”, afirmou Ferreira.

404 GUERREIRO Gonçalo (por), JUSTO Maykel (bra), Loeb Fraymedia Motorsport – RZR Factory Racing

O momento mais duro do dia para Portugal foi o abandono de Gonçalo Guerreiro, vítima de um acidente nas dunas que o retirou imediatamente da corrida. O piloto explicou o sucedido:
“Hoje, durante a Especial 8 do Dakar, estive envolvido num acidente de corrida com outro carro nas dunas, o que resultou em três ossos partidos na minha mão esquerda. Estava a fluir muito bem pelas dunas e a um bom ritmo, mas infelizmente acabámos por entrar numa trajetória de colisão fora do meu campo de visão e, quando o vi, já era tarde demais. O impacto não foi muito violento e o carro está em perfeitas condições, mas senti imediatamente uma dor intensa no braço. Hoje viajo para Portugal para ser submetido a uma cirurgia ao braço esquerdo. Estou extremamente desiludido e ainda não consigo acreditar que estou fora da corrida. Peço desculpa a todos os responsáveis por este projeto e àqueles que acreditaram em mim”.
Um desfecho amargo para um piloto que vinha a realizar uma prova muito sólida.

Nos SSV, além do pódio de João Monteiro, várias equipas portuguesas mantiveram um ritmo competitivo. Rui Carneiro/Fausto Mota e Pedro Gonçalves/Hugo Magalhães continuam a subir posições, enquanto Alexandre Pinto/Bernardo Oliveira enfrentaram uma jornada exigente mas positiva. O piloto da Old Friends Rally Team explicou:
“Ontem a etapa foi muito longa, mas limpa, sem contratempos. Hoje conseguimos imprimir um ritmo forte até metade da especial. Depois misturámo‑nos com outros pilotos que não cederam passagem, fizemos muitos quilómetros no pó e acabámos por furar um pneu. A segunda parte foi mais difícil, com quebra de ritmo, mas já concluímos dois dias da segunda semana com balanço positivo. Não estamos na luta em que gostaríamos, mas estamos a dar o nosso melhor e a acumular pontos para o Campeonato. Estamos contentes por ainda estar em corrida e vamos fazer tudo para terminar este Dakar. Amanhã é maratona — esperamos que tudo corra bem”.

Também Maria Luís Gameiro, acompanhada por Rosa Romero, completou a longa especial com solidez, mantendo‑se em prova e gerindo bem o desgaste acumulado, num Dakar particularmente duro para as equipas privadas.

Nos camiões, Paulo Fiúza, navegando Vaidotas Zala, subiu ao segundo lugar da geral, reforçando a presença portuguesa no topo da categoria.

Amanhã: começa a segunda etapa maratona  – Wadi Ad-Dawasir › Bisha

A etapa 9 marca o início da segunda maratona consecutiva deste Dakar. Os concorrentes partem para uma especial longa, técnica e com forte componente de navegação, sem qualquer assistência mecânica até ao final da etapa 10.
Será um dia de gestão absoluta: pneus, suspensão, motor e, sobretudo, cabeça fria.
Os líderes terão de equilibrar ataque e prudência, enquanto quem vem de trás vê aqui uma oportunidade rara para recuperar tempo.

O Dakar entra agora na sua fase mais dura — e mais decisiva.

Classificação etapa 8

Classificação geral após etapa 8