Notícias do Mundo Motorizado

A Lancia está de volta, e desta vez é a sério!

Havia muito que o nome Lancia andava a circular nos corredores do Campeonato do Mundo de Ralis com aquela mistura de nostalgia e esperança que acompanha sempre o regresso de uma lenda. Mas o que durante meses pareceu pouco mais do que um sonho bem embalado em marketing começou, nas últimas semanas, a ganhar a forma de um projecto desportivo real, ambicioso e com datas marcadas. O objectivo declarado é o WRC de 2027 — e o passo que falta é apenas um, mas enorme: entrar na categoria rainha.

De Turim ao topo do mundo — uma história que ficou gravada no asfalto e na terra

Para perceber o peso do que está a acontecer, é preciso recuar no tempo. A Lancia foi, durante mais de duas décadas, sinónimo de domínio absoluto no Campeonato do Mundo de Ralis. A saga começou nos anos 70, com o Fulvia e o Stratos — este último um dos automóveis de competição mais icónicos alguma vez construídos, responsável por três títulos consecutivos de construtores entre 1974 e 1976. Depois chegou o 037, o último carro de tracção traseira a vencer o Campeonato do Mundo, em 1983, pilotado por Walter Röhrl e Markku Alén, numa época em que o Grupo B começava a impor-se como a mais brutal e fascinante categoria da história dos ralis.

Foi, contudo, com o Delta que a Lancia escreveu as páginas mais douradas do seu legado. Entre 1987 e 1992, o Delta Integrale — com quatro rodas motrizes, turbo e um som inesquecível nas especiais — conquistou seis títulos consecutivos de construtores no WRC, um recorde que ainda hoje nenhum fabricante igualou. Pilotos como Juha Kankkunen, Massimo Biasion e Didier Auriol foram alguns dos heróis que empurraram a máquina turinesa para o topo. Em 1992, com o campeonato vencido, a Lancia anunciou a sua retirada oficial do WRC. O silêncio que se seguiu durou mais de três décadas.

A Ypsilon Rally2 reacende a chama

O regresso começou de forma discreta, mas promissora, com a apresentação da Ypsilon Rally2 HF — uma máquina construída segundo o regulamento Rally2, a segunda divisão do WRC, mas com ambições claramente superiores. E os resultados não tardaram a confirmar que o projecto tinha substância técnica.

Primeiro foi a Croácia, onde Yohan Rossel e Arnaud Dunand conduziram a Ypsilon Rally2 HF à vitória na categoria WRC2, num rali disputado inteiramente no asfalto das estradas adriáticas. Uma vitória histórica — o primeiro sucesso da Lancia no Campeonato do Mundo de Ralis em mais de trinta anos. Depois vieram as Ilhas Canárias, onde o bis foi confirmado com igual solidez. Dois triunfos consecutivos, ambos em asfalto, que fizeram disparar o entusiasmo à volta do projecto e confirmaram que a Ypsilon Rally2 é já, neste momento, perfeitamente competitiva no panorama internacional.

Roberta Zerbi anuncia o passo seguinte

Foi precisamente no parque de assistência das Canárias que chegou a declaração que toda a comunidade dos ralis aguardava. Roberta Zerbi, CEO da Lancia, falou sem rodeios sobre o futuro do projecto: “Estamos muito contentes de ter vindo aqui às Canárias, onde há tanto entusiasmo, e de ter vencido graças a Rossel numa prova que gostámos muito. Estamos muito satisfeitos com o desempenho do carro: no asfalto é mesmo muito rápido. Estaremos agora em Portugal e depois também no Japão. E dado o sucesso e os retornos que estamos a obter, estamos a trabalhar no projecto para preparar o WRC 27, um passo de desenvolvimento que nos interessa.”

Palavras que transformam rumores em intenção declarada. O regulamento técnico do WRC sofrerá uma profunda revisão em 2027, com a introdução de uma nova geração de carros — uma janela histórica para novos construtores entrarem na categoria rainha sem as desvantagens típicas de quem chega a meio de um ciclo tecnológico já maduro. A Lancia percebeu isso e está a posicionar-se para não perder o comboio.

Luca Martello, responsável pelo projeto desportivo, acrescentou: “É verdadeiramente incrível a paixão e o apoio que a Lancia tem entre os adeptos. Pudemo-lo constatar em primeira mão nas especiais. É muito bom ver como a nossa Ypsilon Rally2 consegue estes resultados no Mundial. Não paramos: estaremos também no Japão com um carro entregue a Gryazin.”

O plano de desenvolvimento passa por acumular quilómetros e dados em provas do calendário WRC, num programa progressivo que inclui já participação confirmada no Rali de Portugal — prova de enorme tradição para a Lancia, que aqui venceu inúmeras vezes com o Delta Integrale nos anos dourados — e no Rali do Japão, última prova da época. A presença de Nikolay Gryazin ao volante no Japão é mais um sinal de que o projeto está a crescer também em termos de estrutura e de elenco de pilotos.

Uma lenda que o tempo não apagou

O que talvez mais surpreende, ou talvez não, é a forma como os adeptos continuam a reagir à presença da Lancia nas especiais. Em cada prova, em cada parque de assistência, o emblema com o escudo azul e branco de Turim gera uma atenção e um afecto que nenhuma campanha de comunicação poderia comprar. A marca não saiu do imaginário dos apaixonados pelos ralis — ficou lá, intacta, à espera de voltar a fazer jus ao seu próprio nome.

Se o 2027 for de facto o ano do regresso à classe rainha, o WRC reencontrará uma das suas lendas mais amadas — e, quem sabe, mais temidas. A Lancia já provou, com dez títulos mundiais de construtores e uma herança única no desporto automóvel, que sabe o que é chegar ao topo. A questão já não é se quer voltar. É quando.

Fotos: Rui Reis