Sébastien Ogier voltou a confirmar hoje porque é considerado um dos maiores de sempre. Numa etapa marcada pela instabilidade meteorológica, o piloto francês da Toyota GAZOO Racing soube ler melhor do que ninguém as condições de um sábado difícil e terminou o dia 3 do Vodafone Rally de Portugal com 21,9 segundos de vantagem sobre Thierry Neuville — margem que lhe permite chegar à derradeira etapa de amanhã com confiança, mas ainda sem alívio total.

A jornada mais longa desta edição da prova portuguesa reuniu nove especiais a nordeste do Porto, num total de 145,88 quilómetros cronometrados. Os troços, de natureza mais arenosa e suave do que os duramente percorridos a sul nos dias anteriores, tornaram-se num autêntico teste de resistência e adaptabilidade quando a chuva chegou com força. E quando chegou, tudo mudou.
De líder a perseguidor — e de volta ao topo
O dia começou com Ogier a liderar por escassos 3,7 segundos sobre Neuville. A manhã decorreu sem grandes sobressaltos para o nono campeão do Mundo, que foi administrando a diferença até à chegada da chuva na fase final da manhã. Foi aí que Oliver Solberg entrou em cena de forma inesperada. O jovem sueco, que já tinha vencido a longa especial de Amarante, brilhou nas condições escorregadias de Paredes e, numa reviravolta surpreendente, saltou do quarto para o primeiro lugar — passando de 18,6 segundos de desvantagem para liderar por 0,5 segundos face a Ogier.

A paragem no parque de assistência e o reagrupamento na Exponor, em Matosinhos, acabaram por ser decisivos. Ogier, avisado do que o esperava no segundo anel de especiais, ajustou a configuração do carro para a chuva e regressou à estrada com outra atitude. Recuperou de imediato a liderança em Felgueiras logo na primeira especial da tarde. Solberg, por seu lado, sofreu um furo na roda dianteira direita em Cabeceiras de Basto, perdeu cerca de 18 segundos e caiu para quarto lugar, colocando o seu bom trabalho matinal por água abaixo.
Com a especial de Amarante — a mais longa desta edição, com 26,24 km — disputada nas piores condições do dia, Ogier produziu o que poderá ser a prestação do fim de semana: foi o mais rápido por 11,2 segundos, ampliando a vantagem para os 16 segundos. Mais uma vitória em Paredes 2 e uma super-especial de Lousada disputada na lama intensa completaram um dia de mérito para o francês.
“Foi um bom dia para nós de uma forma geral. De manhã não arriscámos o suficiente na última especial e perdemos muito tempo. Na assistência da hora de almoço mudámos para um acerto mais orientado para a chuva e isso funcionou muito melhor à tarde. Em Amarante, com condições extremas e a diferença para o segundo muito pequena, sabia que tinha de conduzir bem e arriscar. Temos agora alguma margem, mas não suficiente para estar confortável, porque amanhã o tempo pode continuar a ser imprevisível e teremos de continuar a pressionar”, disse Ogier no final do dia.
Neuville segura o segundo lugar, Pajari surpreende

Thierry Neuville e Martijn Wydaeghe tiveram um sábado de altos e baixos. O belga chegou a estar a apenas 2,6 segundos da liderança antes de a chuva complicar os planos — em Paredes 1 desceu ao terceiro lugar, mas recuperou para segundo em Cabeceiras de Basto 2. Na tarde, a dupla da Hyundai Shell Mobis WRT gerou tempos entre os cinco melhores em todas as especiais, mas não conseguiu acompanhar o ritmo de Ogier nos momentos mais duros. “Mais um dia difícil — as condições foram muito exigentes, com muita chuva nas últimas especiais. Estou razoavelmente satisfeito com a minha condução e com a velocidade que conseguimos. Os Toyota parecem ainda um pouco mais rápidos, mas estamos no meio da luta e enquanto assim for estamos bem posicionados”, reconheceu Neuville.
A grande surpresa positiva do dia foi Sami Pajari. O finlandês, companheiro de equipa de Ogier na Toyota GAZOO Racing, ganhou a especial de abertura da manhã e chegou a estar a apenas 5,5 segundos da liderança antes de Amarante 2. Terminou o dia em terceiro, a 25,8 segundos do líder e apenas 3,9 de Neuville — o que antecipa um domingo com uma luta pelo pódio em aberto. “Hoje de manhã correu mesmo bem e as condições foram razoavelmente estáveis. À tarde, com a chuva, as especiais tornaram-se muito mais intensas e escorregadias. Ainda assim, conseguimos manter-nos fora de problemas com velocidade consistente. Amanhã vamos tentar apanhar o Thierry”, afirmou o jovem finlandês.
Lousada na lama — e uma vítima inesperada
O Circuito de Lousada, palco da super-especial que fechou a jornada, esteve à altura da sua reputação dramática. Com a pista totalmente escorregadia — em terra e asfalto —, a chuva transformou o percurso num campo minado. Josh McErlean, ao volante de um Ford, foi uma das vítimas: falhou a travagem e embateu no muro de protecção, acabando eliminado da prova. O sueco Oliver Solberg, apesar do furo que o penalizou à tarde, foi quem melhor geriu as dificuldades de Lousada e ganhou mais de três segundos a Ogier nessa especial.
WRC2: Suninen comanda, equilíbrio total

Na classe WRC2, o finlandês Teemu Suninen (Toyota Yaris Rally2) saltou para o comando com apenas 0,9 segundos de vantagem sobre o espanhol Jan Solans (Škoda Fabia) e 47,7 sobre o também finlandês Roope Korhonen (Toyota Yaris). Uma luta apertada que promete desfecho emocionante no último dia.
Armindo Araújo, o melhor dos portugueses
No capítulo nacional, Armindo Araújo foi a figura do dia. Ao volante do seu Škoda Fabia, o piloto português foi o mais rápido de todos os concorrentes nacionais em todos os troços da jornada, tendo assumido a liderança da classificação particular logo após Cabeceiras de Basto 1, a segunda especial do dia. “A partir daí fomos mantendo uma toada rápida, mas com uma boa margem de segurança, uma vez que a chuva acabou por trazer algumas dificuldades e um pequeno erro poderia custar caro”, afirmou Araújo. O piloto posiciona-se assim bem para cumprir os objetivos que definiu para esta edição — ainda que o Vodafone Rally de Portugal já não conte, nesta fase, para o Campeonato de Portugal de Ralis.

O que aí vem: Vieira do Minho e o salto de Fafe
O domingo será decisivo. Quatro especiais aguardam os concorrentes, sem serviço intermédio no “Super Sunday” — como é tradição nesta prova. O programa passa por duas passagens pelas especiais de Vieira do Minho (8h05 e 10h35) e Fafe (9h35 e 13h15), num total de 65,56 quilómetros cronometrados. A segunda passagem por Fafe, com os seus famosos saltos e a sua atmosfera única, servirá de Power Stage e a cerimónia de pódio realizar-se-á logo após o fim da classificativa.
Ogier parte na frente, com margem suficiente para não arriscar, mas insuficiente para relaxar. Com a chuva como curinga possível, o Rali de Portugal ainda pode reservar surpresas.
Fotos: PureWRC | José Miguel Martins


