Notícias do Mundo Motorizado

Furo de Ogier entrega Rally de Portugal a Neuville

O belga Thierry Neuville venceu a 59.ª edição do Vodafone Rally de Portugal numa tarde de drama em Fafe. Um furo na penúltima especial tirou o triunfo a Sébastien Ogier e entregou à Hyundai a sua primeira vitória da temporada de 2026.

Thierry Neuville e Martijn Wydaeghe

Foi um rali de reviravoltas, de chuva e lama, de furos decisivos e de emoções à flor da pele. No final, quando os motores se calaram em Fafe, o nome gravado na história da 59.ª edição do Vodafone Rally de Portugal foi o de Thierry Neuville. O campeão do Mundo de 2024, ao volante de um Hyundai i20 N Rally1, completou a prova em 3h53m01.7s, com 16.3 segundos de vantagem sobre Oliver Solberg (Toyota GR Yaris Rally1), que garantiu o segundo lugar, enquanto Elfyn Evans fechou o pódio na terceira posição, a 29.1 segundos do vencedor.

Para Neuville, esta é a primeira vitória de 2026 e a segunda em território português. Para a Hyundai Motorsport, representa o 35.º triunfo na história do WRC, chegando depois de semanas de frustração — nomeadamente na Croácia, onde o belga perdeu uma vitória provável na última especial. “Foi uma prova especial e esta vitória veio na altura certa. Decepcionei na Croácia, mas nunca desistimos neste rali e sempre estivemos no sítio certo, caso acontecesse algo de anormal aos nossos adversários, sobretudo ao Sébastien”, declarou o vencedor, referindo-se ao momento que acabaria por definir a corrida.

Ogier paga o preço na penúltima especial

O rali foi, durante quatro dias, uma batalha campal entre Sébastien Ogier e o restante pelotão. O francês, nove vezes campeão do Mundo, chegou ao último dia com 21.9 segundos de vantagem e parecia encaminhado para uma vitória histórica — a sua oitava em Portugal, um recorde absoluto. Após as duas primeiras especiais de domingo, a vantagem mantinha-se em 17.3 segundos, e o triunfo parecia garantido.

Sébastien Ogier – Vincent Landais

Mas o rali é implacável. Na penúltima classificativa — a segunda passagem por Vieira do Minho, troço marcado pelos sulcos profundos e pedras expostas —, Ogier e o co-piloto Vincent Landais foram forçados a parar para substituir um pneu furado, perdendo cerca de dois minutos. “No início desta penúltima especial estava muito encovado e havia pedras na linha. Não acho que pudéssemos ter feito muito de diferente. Tudo o que podíamos controlar este fim de semana, acho que fizemos bem. Merecíamos melhor, mas às vezes os ralis são duros para nós”, reconheceu Ogier, que terminou na sexta posição da classificação geral.

A mesma pedreira cobrou nova vítima. Sami Pajari, que corria em terceiro lugar e sonhava com o quinto pódio consecutivo, sofreu também um furo e perdeu mais de dois minutos, caindo para sétimo lugar. Numa só especial, a Toyota viu evaporar-se o que parecia uma dobradinha perfeita.

“Nunca é uma boa sensação perder uma vitória tão perto do fim, mas nós beneficiámos de uma situação semelhante na Croácia este ano e agora estávamos do outro lado. Isto é são os ralis: nunca acaba até acabar”, disse Juha Kankkunen, Vice-director da Toyota Gazoo Racing WRT.

Uma semana de quatro líderes diferentes

O Vodafone Rally de Portugal 2026 foi um verdadeiro espectáculo de incerteza. Ao longo das 23 especiais disputadas em quatro dias, a liderança mudou de mãos seis vezes. Oliver Solberg tinha assumido o comando após as três especiais de quinta-feira, com 3.4 segundos sobre Adrien Fourmaux. O francês da Hyundai respondeu de imediato na sexta-feira, voando para a frente — até que um duplo furo na especial de Góis o atirou para baixo da tabela. Ogier aproveitou o caos para se instalar no primeiro lugar, posição que manteve até ao desfecho cruel de domingo.

Oliver Solberg – Elliott Edmondson

O Sábado trouxe chuva, lama e uma reviravolta espetacular: Solberg, que tinha recuado para quarto, foi o mais rápido na última especial da manhã e assumiu a liderança com meio segundo sobre Ogier. O francês recuperou à tarde, mas o Toyota de Solberg sofreu um furo no troço 16 e a tarde tornou-se uma montanha-russa de posições. Neuville, mais contido e consistente, nunca se afastou demais da frente.

“Que fim de semana! Foi louco lá fora, enfrentámos todo o tipo de condições e emoções, mas fomos consistentes, nunca perdemos muito tempo. Acho que foi isso que nos deu a vitória final, além de não cometermos erros. Sabemos que o rali nunca acaba até acabar; o stress era muito alto na última especial, mas conseguimos”, afirmou Neuville no final.

Fourmaux brilha na Power Stage; M-Sport vive pesadelo

Na Power Stage, disputada em Fafe perante uma multidão entusiasta mesmo sob a chuva, foi o francês Adrien Fourmaux — companheiro de equipa de Neuville na Hyundai — quem registou o tempo mais rápido, por apenas 0.6 segundos sobre o vencedor. Fourmaux, que tinha liderado o rali durante parte de sexta-feira antes do duplo furo em Góis, terminou na quarta posição geral e consolidou a sua presença no top-4 do campeonato. “Foi um fim de semana muito positivo para a equipa aqui em Portugal. É um óptimo resultado para toda a equipa e com todo o trabalho de preparação que fizemos recentemente, estou satisfeito por começarmos a ter algum sucesso. Obrigado aos adeptos, foi fantástico vê-los em força mesmo com a chuva”, disse o piloto francês.

Adrien Fourmaux – Alexandre Coria

A M-Sport Ford, pelo contrário, viveu um autêntico pesadelo. A equipa britânica, que alinhava com três Ford Puma Rally1 pilotados por uma geração jovem e em desenvolvimento — Mārtiņš Sesks, Josh McErlean e Jon Armstrong —, viu os seus dois pilotos mais experientes sobreviverem à prova por milagre. McErlean liderava internamente a equipa quando o carro ficou parado na assistência remota de sexta-feira. No sábado, após uma saída de estrada, acabou por colidir com as barreiras na Super Especial do circuito de Lousada, com o carro a tornar-se ingovernável sob a chuva torrencial. A equipa trabalhou até às três da manhã para o recolocar na pista para domingo. Armstrong, por sua vez, perdeu a direcção assistida na tarde de sexta-feira e capotou na especial 15 de sábado, abandonando definitivamente. Sesks, o letão em regresso ao calendário após Rally da Suécia, foi o único sobrevivente digno — terminou na nona posição após um duplo furo na sexta-feira que lhe custou qualquer ambição de pontos.

Campeonato: Evans reforça liderança

Elfyn Evans – Scott Martin

No campeonato de pilotos, Elfyn Evans aproveita as desventuras do rali para reforçar a liderança. O galês acumula agora 123 pontos, mais 12 do que Taka moto Katsuta, que terminou em quinto lugar. Oliver Solberg é terceiro com 92 pontos. Neuville, apesar da vitória, está apenas em sétimo lugar com 65 pontos, mas começa a ganhar embalo. No campeonato de construtores, a Toyota mantém-se na frente com 311 pontos, contra 218 da Hyundai.

WRC2: Suninen triunfa

No WRC2, o finlandês Teemu Suninen (Toyota GR Yaris Rally2) conquistou a vitória, após uma batalha prolongada com Jan Solans — que liderou a categoria, mas saiu de estrada na penúltima especial. O russo Nikolay Gryazin (Lancia Ypsilon Rally2 HF Intégrale) foi segundo e Roope Korhonen (Toyota) terceiro. Robert Virves, que chegou a ser o mais rápido em termos absolutos na primeira passagem por Fafe, foi forçado a regressar em Super Rally com penalização de 30 minutos, o que inviabilizou qualquer pretensão aos lugares de honra.

Teemu Suninen – Janni Hussi

Armindo Araújo melhor português, Paulo Neto vence Masters

Entre os portugueses, Armindo Araújo (Skoda Fabia RS Rally2) cumpriu o seu objectivo principal, terminando no 24.º lugar da classificação geral e como melhor representante nacional. “É um enorme orgulho voltar a subir ao pódio, no final de mais um Vodafone Rally de Portugal, com o título de melhor português. Este continua a ser o melhor rali do mundo e a maior festa do automobilismo no nosso país”, afirmou Armindo, visivelmente satisfeito.

 Paulo Neto e Carlos Magalhães (Skoda Fabia RS) venceram a FIA WRC Masters Cup. Só posso estar contente com os dois resultados atingidos. Uma das intenções era disputar o Masters WRC e foi mais um objetivo alcançado com esta vitória tão saborosa. Estou muito mais adaptado ao carro, depois de uma prova muito difícil, essencialmente com a chegada da chuva com os troços enlameados e com muitas armadilhas, o que nos fez baixar o ritmo. Foi um prazer especial fazer a totalidade do Vodafone Rally de Portugal. Valeu muito a pena!”, disse Paulo Neto, emocionado.

Paulo Neto – Carlos Magalhães vencem entre os Masters do WRC

Para já, o próximo destino é o Japão

O WRC ruma agora ao Rally do Japão, que terá lugar de 28 a 31 de Maio, em Aichi e Gifu, perto de Nagoya — terreno familiar para a Toyota. Elfyn Evans parte com a liderança do campeonato, mas num ano onde os furos e as pedras já decidiram dois ralis consecutivos, a imprevisibilidade continua a ser a única certeza.

Fotos: PureWRC | José Miguel Martins

Vodafone Rally de Portugal — Classificação Final (Top 10)

Pos.Piloto / Co-pilotoViaturaTempo/Dif.
1T. Neuville / M. WydaegheHyundai i20 N Rally13h53m01.7s
2O. Solberg / E. EdmondsonToyota GR Yaris Rally1+16.3s
3E. Evans / S. MartinToyota GR Yaris Rally1+29.1s
4A. Fourmaux / A. CoriaHyundai i20 N Rally1+54.8s
5T. Katsuta / A. JohnstonToyota GR Yaris Rally1+1m12.6s
6S. Ogier / V. LandaisToyota GR Yaris Rally1+1m26.6s
7S. Pajari / M. SalminenToyota GR Yaris Rally1+2m50.9s
8D. Sordo / C. CarreraHyundai i20 N Rally1+4m10.0s
9M. Sesks / R. FrancisFord Puma Rally1+6m49.2s
10T. Suninen / J. HussiToyota GR Yaris Rally2+11m13.8s