Portugal viveu este fim de semana um dos momentos mais marcantes da sua história recente nos rally raid. Na Baja España Aragón 2026, disputada entre sexta-feira e domingo em Teruel, no nordeste de Espanha, e pontuável para a Taça do Mundo de Bajas Todo-o-Terreno da FIA, os pilotos lusos venceram todas as categorias em disputa — Ultimate, Challenger, SSV e Stock — e ainda colocaram quatro equipas entre as seis primeiras da classificação geral. Um domínio raramente visto numa prova desta dimensão, com mais de 480 quilómetros cronometrados espalhados por um prólogo e duas etapas em terrenos exigentes.

À cabeça de tudo esteve, mais uma vez, João Ferreira. O piloto da Toyota Gazoo Racing África do Sul, navegado por Filipe Palmeiro num Toyota Hilux, revalidou a vitória conquistada em 2025 e assinou o segundo triunfo consecutivo na prova aragonesa, impondo-se com cerca de quatro minutos de vantagem sobre o compatriota Luís Portela Morais. Ferreira marcou o melhor tempo logo no primeiro setor seletivo e, a partir daí, geriu a corrida com inteligência — uma opção também ditada por uma pequena lesão na mão direita, sofrida dias antes da prova. “Sabe muito bem voltar a ganhar aqui. A Baja Aragón é uma prova que me diz muito e vencer pela segunda vez tem um sabor especial”, afirmou o piloto no final, agradecendo à Toyota Gazoo Racing África do Sul e à SVR “porque o carro esteve impecável do princípio ao fim”. Filipe Palmeiro sublinhou também o esforço do companheiro de equipa apesar da lesão: “Fizemos um trabalho limpo, sem erros. Precisamos apenas de continuar assim.”

Luís Portela Morais, ao lado de Carlos Jorge Mendes, protagonizou uma das histórias do fim de semana: na sua estreia na categoria rainha Ultimate, subiu ao pódio logo à primeira tentativa, beneficiando ainda de problemas do saudita Yazeed Al Rajhi na derradeira especial. “Nunca imaginei que a minha primeira vez fosse com um pódio”, confessou, emocionado, um piloto que representa a Overdrive Racing. O pódio da geral ficou completo pelo sul-africano Saood Variawa, companheiro de equipa de Ferreira, com a espanhola Cristina Gutiérrez — uma das figuras mais acompanhadas do rally raid ibérico — a terminar em quarto na estreia com o novo protótipo Santana.

A classificação geral confirmou a força lusa: depois de Ferreira e Portela, também Francisco Barreto/Paulo Fíuza (5.º) e Gonçalo Guerreiro/João Lutas (6.º) fecharam o top 6 absoluto, este último apesar de competir na categoria Challenger. Guerreiro e Lutas, ao volante de um Taurus Evo Max, dominaram, aliás, a Challenger de forma incontestável: venceram o prólogo e as três especiais, fechando com mais de cinco minutos de vantagem sobre os holandeses Mitchel van den Brink/Bart van Heun, segundos, e à frente de Hans Klaassen/Siripanyavuthi, terceiros com um Taurus T3 Max.

Na categoria SSV, o triunfo sorriu a outra dupla portuguesa em plena estreia: Afonso Oliveira, a competir pela primeira vez pela South Racing Can-Am, e Daniel Jordão vestiram-se de líderes desde o prólogo e resistiram até ao fim, apesar de perderem terreno na última especial. A festa foi quase toda nacional, já que Rui Rodrigues e Rui Moreira, também em Can-Am Maverick R, terminaram em segundo a menos de dois minutos, depois de assinarem o melhor tempo absoluto no derradeiro sector selectivo.

Fernando Barreiros somou a sua terceira vitória internacional da temporada, na categoria Stock, ao volante de um Isuzu D-Max com José Marques na navegação. O piloto foi o mais rápido no prólogo e em todas as especiais, batendo a concorrência por mais de 20 minutos e reforçando a sua posição na luta pela Taça do Mundo da categoria. “Vencemos todos os sectores selectivos, o que nos permitiu arrecadar a pontuação máxima (…) mas infelizmente não foi possível resolver o problema com a temperatura do combustível, fomos obrigados a uma gestão de corrida muito rigorosa e a navegação milimétrica do José Marques foi fundamental”, explicou Barreiros, já de olhos postos na prova seguinte, “dentro de quatro dias”.
Entre as histórias paralelas da prova, destaque ainda para a dupla luso-espanhola Maria Luís Gameiro/Rosa Romero, a primeira equipa totalmente feminina a competir na categoria Ultimate, que terminou em 15.º lugar na classe e 26.º na geral da FIA — um resultado simbólico numa prova que continua a abrir portas à participação feminina no todo-o-terreno.

No final, Jordi Duran, diretor da Toyota Gazoo Racing, resumiu o sentimento da equipa: “Começámos este projeto há um ano. Hoje mostrámos que estamos prontos para alcançar um resultado muito bom.” Para os portugueses, a festa não fica por aqui: João Ferreira ruma agora à Baja TT Reguengos, já no próximo fim de semana, antes de rumar ao Rallye du Maroc, prova da Taça do Mundo de Baja Todo-o-Terreno da FIA.

