Setenta e oito anos depois de se estrear no Salão Automóvel de Paris, o Citroën 2 CV regressa à capital francesa numa versão eléctrica, minimalista e assumidamente descomplicada. O 2 CV Concept, apresentado hoje, antecipa um modelo de produção que a marca dos Chevrons promete para 2028, fabricado na Europa e com um preço de partida a rondar os 15.000€. Nos tempos que correm, é um valor que soa quase a provocação.

Posicionado entre o Ami e o C3, cumprirá a futura regulamentação europeia E-Car, pensada para os pequenos eléctricos. Com 3,76 metros, é mais curto do que o original (3,85 m), algo inédito numa reedição. “Esta é a primeira vez que uma reedição é mais curta do que a versão original. A secção dianteira tinha de ser apelativa sem parecer um brinquedo”, explica Pierre Leclercq, Director de Design da Citroën. A meta é um peso de uma tonelada, que permite uma bateria mais pequena e económica e uma autonomia ajustada ao dia-a-dia. Para Xavier Chardon, CEO da marca, “reinventar o 2 CV não significa replicar um automóvel do passado; trata-se de reinventar o que o tornava único: a sua simplicidade, a sua acessibilidade e a liberdade que oferecia”.
O design mantém a silhueta inconfundível, mas com linhas mais tensas. Os faróis redondos parecem flutuar, o para-brisas é vertical, a porta traseira preta prolonga-se até ao pára-choques e a matrícula é um ecrã digital que exibe as alcunhas do 2 CV pelo mundo. O tejadilho de tecido enrola-se à mão. “Humanizámos o design para que as pessoas possam redescobrir o seu sentido de admiração infantil”, diz Antoine Gaillot-Drevon, Gestor de Concept Cars. A cor é o Infra Red, de base laranja com reflexos amarelos e vermelhos.
No interior, desaparece o painel de instrumentos tradicional. Em seu lugar surge um cilindro que reúne o volante de raio único, uma só haste de comandos, o selector de velocidades e o ecrã head-up Smart Vision, que recupera o velocímetro de tambor do Citroën GS. Há ainda um ecrã “phygital” de 8 polegadas com gráficos de banda desenhada e o “Radioën”, um rádio amovível que serve de altifalante. Os bancos, em tartan amarelo e com tecnologia Advanced Comfort, têm o dianteiro extraível, para um piquenique. O cesto de arrumação, no lugar da consola central, é impresso em 3D em madeira e plástico de base biológica. Os pedais têm uma tartaruga no travão e uma lebre no acelerador, e as portas trazem compartimentos para ovos, numa alusão à exigência original de atravessar um campo lavrado sem partir nenhum.
Para o público português, há ainda um motivo de orgulho. Foi na fábrica de Mangualde que, em 1990, saiu da linha o último 2 CV, depois de mais de cinco milhões de unidades produzidas. Os números 48/90/26 no para-brisas, que assinalam a estreia, o fim da produção e a apresentação do concept, também lhe dizem respeito. A Michelin colaborou no projecto com um Modelo Digital Universal do Pneu, que dispensa sensores e permite ao carro adaptar-se às condições da estrada.
O 2 CV nunca quis ser um ícone. Agora, o desafio do herdeiro é provar que a mobilidade eléctrica ainda pode ser simples, acessível e sorridente.

