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O hidrogénio vai ao Dakar, e há mão portuguesa nisto!

A GAZOO Racing já tem pronto a DKR GR FC Hilux, o protótipo a fuel cell com que a Toyota se estreia no Dakar de 2027. A condução fica entregue à saudita Dania Akeel, e o carro já está em fase de testes dinâmicos.

A Toyota não quer ficar na fotografia e passou à acção. A construção do DKR GR FC Hilux, um veículo eléctrico a pilha de combustível (FCEV) que a GAZOO Racing vai inscrever no Dakar de 2027, está concluída, e o protótipo iniciou o programa de testes dinâmicos antes da estreia competitiva. É a primeira participação a sério da marca japonesa numa competição com um FCEV a hidrogénio, e acontece na categoria Dakar Future Mission 1000, reservada a veículos experimentais e a novas tecnologias.

Por trás do projecto está um desenvolvimento curto e intenso, que juntou vários braços do universo Toyota. O centro europeu de I&D, nos arredores de Bruxelas, trabalhou com a Overdrive Racing, que gere a equipa TOYOTA GAZOO Racing W2RC e desenvolveu o DKR GR Hilux, bem como com a TOYOTA RACING GmbH, em Colónia, e a Toyota Motor Corporation. Para a marca, a iniciativa enquadra-se na abordagem Multipath, que passa por explorar várias tecnologias de motorização alternativas, e serve também para formar pessoas e talento através da competição.

Uma piloto com cadastro no deserto

Ao volante estará Dania Akeel, que conduzirá o Hilux nos testes e no Dakar. A saudita iniciou a carreira nos rally-raid em 2021 e já acumula um currículo respeitável. Na sua primeira participação no Dakar terminou no top 10 da classe T3, em 2025 venceu uma etapa na categoria Challenger, e nas temporadas de 2025 e 2026 do W2RC somou vitórias em várias etapas. Venceu ainda a classe Challenger do Abu Dhabi Desert Challenge e conquistou por duas vezes a FIA Middle East Baja Cup (2024 e 2025), ao volante de uma Toyota Hilux da Overdrive Racing.

“Esta é uma grande oportunidade para aprender como as novas tecnologias são levadas à vida no mundo automóvel. Testemunhar um projecto tão pioneiro a partir do lugar do piloto é uma experiência verdadeiramente única, que considero um privilégio e um prazer”, afirma Akeel, que destaca também a importância de dar o seu feedback como piloto ao desenvolvimento destas tecnologias.

A piloto sublinha ainda o valor do rally-raid como laboratório: “A nossa maior vantagem como pilotos é conseguirmos correr em terrenos e condições diversos, o que exige flexibilidade e eficácia em ambientes em mudança. É perfeito para testar a fiabilidade e a durabilidade de qualquer carro ou tecnologia nova até ao limite.”

Debaixo do capot (ou melhor, da carroçaria)

A DKR GR FC Hilux partilha a plataforma da DKR GR Hilux, e por isso mantém o chassis tubular, a célula de segurança, a suspensão e os travões. A grande diferença está no sistema de propulsão, que combina duas fuel cell stacks numa única unidade de alta potência. Debita 400 kW, qualquer coisa como 540 cv, e é gerida por uma ECU IAV Dragoon. O hidrogénio comprimido fica guardado em quatro depósitos de alta pressão do tipo Mirai, com 8,4 kg no total.

Há ainda um e-axle dedicado, um novo sistema electrónico e um sistema de refrigeração de alta tensão. Nas soluções inovadoras destacam-se os painéis em fibras naturais, que substituem parte da fibra de carbono. A suspensão de duplo triângulo oferece 350 mm de curso, e o conjunto, com 4,5 metros de comprimento, 2,3 de largura e 2,1 de altura, pesa menos de 2500 kg. Calça pneus Toyo Tire Open Country M/T-R. O projecto conta com o apoio da Jameel Motorsport e de parceiros como DENSO, TOYO TIRE, IAV e PRF.

Zero no escape, mas com letra pequena

A Toyota fala em zero emissões de CO₂ no escape durante a condução, e a nota de rodapé do comunicado é um lembrete útil: o hidrogénio pode ser produzido a partir de várias fontes de energia, incluindo as fósseis. As emissões também podem surgir noutras fases do ciclo de vida, do fabrico ao fim de vida, passando pela produção do combustível e pelo desgaste de pneus e travões.

E em Portugal?

O hidrogénio ainda é um território pouco explorado por cá. A Toyota vende o Mirai no mercado português desde 2021, a um preço de cerca de 70.000€, mas a escassez de postos de abastecimento continua a ser o grande obstáculo à sua popularização. Por isso, um programa desportivo desta natureza serve também para ganhar experiência com componentes que podem chegar um dia à estrada.

Nesta aventura há, aliás, um nome bem português. A PRF, sedeada em Leiria e com cerca de três décadas de actividade no sector do gás, é um dos parceiros do projecto da GAZOO Racing e tem larga experiência em hidrogénio. A empresa desenvolveu e construiu em Portugal o DRHYVE, um posto portátil de abastecimento de hidrogénio que já foi utilizado em projectos de demonstração em mobilidade ligeira, transporte pesado e desportos motorizados. Segundo apurámos, a PRF deverá voltar a ser a parceira da ASO, a organizadora da prova, na central de reabastecimento de hidrogénio do Dakar, o que reforça o peso da engenharia nacional num dos eventos mais exigentes do mundo.

Quanto ao Dakar, a edição de 2027 estava prevista para a Arábia Saudita, entre 1 e 15 de Janeiro. Segundo a Reuters, que cita fontes ligadas ao campeonato, a prova vai agora regressar a África por causa da situação no Médio Oriente, entre 9 e 22 de Janeiro. O prólogo deverá disputar-se em Espanha ou em Portugal, seguindo-se cerca de doze etapas em Marrocos. A confirmação oficial ainda não foi divulgada, mas se se confirmar, a primeira Hilux a hidrogénio da Toyota poderá dar os primeiros metros competitivos mesmo aqui ao lado.

A Toyota não esconde o objectivo de fundo: testar componentes de série e tecnologia avançada num dos ambientes mais agrestes do desporto motorizado, para que a experiência acumulada possa beneficiar os futuros automóveis de estrada e as aplicações de fuel cell. Resta saber se o deserto vai dar razão à aposta do hidrogénio.