Pela primeira vez, o Abu Dhabi Desert Challenge encerra a época do W2RC, com um percurso inédito rumo ao Oeste e três pilotos separados por apenas 20 pontos no topo da classificação dos Carros
Há desertos que servem de cenário e outros que decidem campeonatos. De 22 a 27 de Novembro, o de Abu Dhabi fará as duas coisas: pela primeira vez desde a criação do FIA-FIM World Rally-Raid Championship (W2RC), em 2022, o Abu Dhabi Desert Challenge será a quinta e última ronda da época. Organizada pela EMSO (Emirates Motorsports Organization), a 35.ª edição promete uma travessia do Emirado de uma ponta à outra, com 1931 km de percurso, 1326 dos quais em especiais, e muito terreno por descobrir.

Tudo começa e acaba em Al Ain, a cerca de 150 km da capital, junto à fronteira com Omã. Classificada pela UNESCO como Património Mundial, nasceu sobre vestígios de culturas com 8000 anos e é hoje uma cidade-jardim com seis oásis e 1200 hectares de palmeiras. A grande novidade está a Oeste: Madinat Zayed, capital da região de Al Dhafra, que representa mais de 70% do território do Emirado, será o bivouac principal e receberá a meta de três das cinco etapas, enquanto Al Sila, no extremo ocidental, vai montar o Marathon Camp junto ao mar. O ambiente de acampamento à beira-mar, que em 2025 juntou pela primeira vez carros e motos, regressa este ano com churrasco incluído.

Para a organização, o desafio é tanto geográfico como simbólico. Nasser Mohammed Al Mansoori, subsecretário do gabinete do Representante do Governante em Al Dhafra, sublinhou que o apoio do xeque Hamdan bin Zayed Al Nahyan é determinante numa edição que mostra ao mundo o património cultural e natural da região. Khalid Ben Sulayem, presidente da EMSO, lembrou que a estreia em Al Ain, em 2025, abriu caminho a este alargamento e afirmou que o percurso foi, mais uma vez, profundamente revisto. Já Aref Hamad Al Awani, secretário-geral do Abu Dhabi Sports Council, destacou a dimensão internacional que a prova construiu em mais de 30 anos.
A organização promete um verdadeiro western no deserto. Em números, o traçado tem «apenas» 23% de dunas e 44% de pistas arenosas e fora de pista, a que se juntam 8% de chotts, 12% de terra batida e 4% de zonas rochosas. Menos areia significa mais variedade e, sobretudo, mais navegação. As duas primeiras etapas, Al Ain–Madinat Zayed e Madinat Zayed–Al Sila, formam uma corrida para Oeste ao longo do Trópico de Câncer, com paisagens rochosas nunca vistas na prova. Pistas mais rápidas, muitas vezes com vários itinerários possíveis, vão pôr os navegadores à prova, em especial nas etapas 2 e 3, entre Al Sila e Madinat Zayed.
As dunas, claro, não ficam de fora. A quarta etapa, um laço de 351 km em redor de Madinat Zayed, reúne o melhor do deserto de Liwa e leva os concorrentes até às gigantescas dunas do mítico Rub Al Khali. A quinta traz todos de volta a Al Ain, por zonas inéditas e pelas dunas de Al Quaa, famosas pelo céu nocturno, dos mais escuros do país, num final à altura do que estará em jogo.
Em Portugal, convém acertar os relógios: a prova segue a hora dos Emirados (GMT+4), menos quatro do que em Lisboa. O prólogo das motos, no domingo, 22, arranca às 11h00 locais (07h00 em Portugal) e o shakedown dos carros decorre à tarde. As especiais de segunda a sexta somam 226, 330, 286, 258 e 219 km, a entrega de prémios começa às 18h30 locais (14h30 em Portugal) e as inscrições encerram a 6 de Novembro.

E o que está em jogo? Muito. Nos Carros, o norte-americano Seth Quintero (Toyota Gazoo Racing W2RC) chega com 135 pontos, depois de vencer na Argentina e em Marrocos. Segue-se Sébastien Loeb (Dacia Sandriders), vencedor em Portugal, a 14 pontos, e Nasser Al-Attiyah, vencedor do Dakar e também da Dacia, a 20. Nos rally-raid, porém, uma avaria, um erro de navegação ou um furo no momento errado valem mais do que qualquer vantagem, e uma vitória na geral, somada a alguns triunfos em especiais, pode bastar para virar a tabela. A Dacia lidera os construtores com 372 pontos, contra 325 da Toyota W2RC e 232 da Ford, mas tem de gerir a rivalidade entre dois pilotos de topo na mesma garagem.

Para o público português, as atenções estarão em João Ferreira. O piloto da Toyota Gazoo Racing SA é quarto, com 86 pontos, e já subiu ao pódio duas vezes este ano, com um terceiro lugar na prova de casa, o bp Ultimate Rally-Raid Portugal, e um segundo em Marrocos. Está a 49 pontos do líder, pelo que o título exige um fim de semana perfeito e um desastre do americano, mas um bom resultado pode ainda consolidar o lugar entre os melhores da época. Nos SSV, Alexandre Pinto (Old Friends Rally Team) é o mais bem classificado dos portugueses, no 19.º lugar da geral.

Nas motos, a cor dominante é o laranja da KTM, que ainda não perdeu uma prova em 2026: Luciano Benavides ganhou o Dakar, Daniel Sanders venceu em Portugal e na Argentina e Edgar Canet, aos 21 anos, tornou-se o mais jovem vencedor de sempre do Rallye du Maroc. Sanders, campeão em título, lidera com 87 pontos, 13 à frente de Benavides e do espanhol Tosha Schareina (Honda). Admitiu que Marrocos foi uma prova frustrante a nível pessoal, mas saiu de lá com a vantagem aumentada e a possibilidade de revalidar o título. Só outro erro de navegação o travará.
No papel, há campeão quase à vista nas motos e três candidatos nos carros. Na prática, ninguém conhece o Oeste de Abu Dhabi. E é por isso que, a 27 de Novembro, em Al Ain, a única certeza é que o título só será decidido no último quilómetro.
Fotos: ASO

