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Rui Madeira faz história nas Camélias

O piloto português conquistou a sua quarta vitória no bilstein group Rallye das Camélias 2026, numa edição marcada por adversidades, percurso renovado e um domínio praticamente absoluto ao longo dos dois dias de competição.

A edição de 2026 do bilstein group Rallye das Camélias ficará para a história não apenas pelo resultado desportivo, mas também pela resiliência que lhe deu vida. Originalmente agendada para 6 e 7 de fevereiro, a prova foi adiada por duas vezes — primeiro por razões de ordem pública, depois devido ao impacto devastador das tempestades que assolaram o Centro e Sul de Portugal no início do ano, deixando rastos de destruição em várias estradas da região. A comissão organizadora, liderada pelo Clube de Motorismo de Setúbal, optou por pausar, avaliar e regressar mais forte. O resultado foi uma prova realizada nos dias 25 e 26 de abril, com um percurso reformulado para dar resposta às condicionantes no terreno. Uma das grandes novidades desta edição foi precisamente a ausência da Serra de Sintra, afetada pelos estragos de fevereiro, sendo substituída por troços nos concelhos de Almargem do Bispo, Casal Barbas e Torres Vedras — novidades absolutas no traçado das Camélias.

Com décadas de história nas estradas do Parque Natural de Sintra-Cascais, o Rallye das Camélias é uma das provas mais icónicas do automobilismo português. Realizada originalmente com grande regularidade até 1991, regressou ao calendário em 2018 por iniciativa do Clube de Motorismo de Setúbal, com o apoio das câmaras municipais de Cascais, Sintra e Mafra. Desde então, afirmou-se como um dos eventos mais exigentes em piso de asfalto do país e como uma montra de qualidade para o desporto motorizado nacional. A edição de 2026, apesar de todas as adversidades, apresentou-se com um percurso de 73,19 quilómetros cronometrados distribuídos por oito especiais de classificação, num total de cerca de 283 quilómetros de itinerário.

O cartaz da prova prometia muito antes do primeiro carro largar. Do lado dos favoritos, sobressaíam dois nomes: Carlos Fernandes, vencedor das edições de 2024 e 2025, que regressava com Valter Cardoso ao volante de um Mitsubishi Carisma GT Evo V na tentativa de conquistar o terceiro triunfo consecutivo; e Rui Madeira, já com três vitórias nas Camélias no palmarés (2021, 2022 e 2023), a bordo do Hyundai i20 N Rally2 preparado pela CRN Competition, tendo como navegador Nuno Rodrigues da Silva. A lista de candidatos aos lugares cimeiros incluía ainda Gil Antunes e Diogo Correia em Skoda Fabia Rally2, João Barros e Jorge Henriques igualmente em Skoda Fabia Rally2, e André Cabeças com Miguel Castro em Citroën C3 Rally2. O carro 0 ficou a cargo de Vaidotas Žala e Paulo Fiúza, vencedores do Rally Dakar na categoria de camiões, uma presença de prestígio internacional que reforçou o estatuto do evento.

A primeira etapa de sábado revelou imediatamente as intenções de Rui Madeira. Depois de um arranque sólido em Almargem do Bispo, onde perdeu apenas um segundo para o melhor tempo na primeira passagem, o piloto foi crescendo de forma consistente. Como ele próprio explicou no final: “Esta prova tinha como objetivo lutarmos pela vitória com o Hyundai i20 Rally2 da CRN Competition, que se apresentou sempre muito competitivo. Entrámos bem na primeira classificativa de Almargem do Bispo, em que perdemos apenas um segundo para o melhor tempo. Na segunda passagem conseguimos vencer e terminámos na liderança da primeira etapa.” A liderança no final do sábado era já um sinal claro do que estaria para vir no dia seguinte.

O domingo foi a confirmação do domínio. Rui Madeira e Nuno Rodrigues da Silva venceram cinco das seis especiais de classificação da segunda etapa — cedendo apenas uma, por apenas sete décimas de segundo —, numa demonstração de velocidade e controlo que raramente se vê num rali nacional. No total, a dupla venceu seis das oito especiais disputadas ao longo do fim de semana, chegando à meta com uma vantagem de 21,8 segundos sobre os segundos classificados, uma margem confortável que nunca deixou margem para suspense nas fases finais da prova. Questionado sobre a gestão da segunda etapa, o piloto foi claro: “Na segunda etapa mantivemos sempre a liderança e vencemos cinco das seis especiais do dia, perdendo apenas uma por sete décimas. Fomos percebendo qual a forma de tirar proveito das afinações do Hyundai i20 e nitidamente melhorámos na secção da tarde, em que se tornou mais fácil. Era aí que sabíamos que a PEC mais longa faria toda a diferença, mas não foi necessário atacar perante a vantagem que tínhamos.”

Para além do puro resultado desportivo, a vitória nas Camélias carregou um peso emocional particular para toda a estrutura. A dupla vinha de uma desilusão no Rally de Lisboa — prova que antecedeu as Camélias na temporada —, e a resposta dada ao longo do fim de semana foi a de uma equipa que soube transformar a frustração em motivação. Nas palavras do próprio Rui Madeira: “Depois do balde de água fria no passado Rali de Lisboa, queremos dedicar a vitória à CRN Competition, sponsors, família e fãs que estiveram sempre a torcer por nós ao longo de toda a prova.” Uma vitória, portanto, com o sabor extra de quem sabe o que é falhar e sabe ainda melhor o que é superar.

Rui Madeira fez também questão de reconhecer publicamente o esforço da organização, num contexto em que realizar a prova foi, em si mesmo, uma conquista: “Quero dar os parabéns ao trabalho da organização pelas adversidades que foi superando nos últimos meses para realizar a prova.” De facto, manter viva uma prova desta dimensão, com todos os parceiros, entidades e municípios envolvidos, numa janela temporal tão condicionada por circunstâncias externas, é um feito que merece reconhecimento. O comunicado da organização foi também explícito a esse respeito, afirmando que os dias 25 e 26 de abril representaram “muito mais do que a realização de uma prova desportiva” — antes a resiliência de uma organização e a paixão inabalável dos concorrentes e adeptos.

Rui Madeira é um nome incontornável do automobilismo português. Campeão do mundo de Grupo N em 1995 — um título que lhe conferiu projeção internacional —, o piloto lusitano construiu ao longo das décadas uma carreira marcada pela consistência, pelo conhecimento técnico e por uma capacidade de adaptação que poucos conseguem replicar. A sua ligação ao Rallye das Camélias é particular: a prova parece adequar-se ao seu estilo de condução preciso e calculado, e os resultados confirmam essa afinidade. Com quatro triunfos em edições disputadas (2021, 2022, 2023 e 2026), Madeira é o piloto mais vitorioso da era moderna desta prova, e esta última conquista reforça ainda mais o seu estatuto de referência nas camadas veteranas do rali nacional.

Com a temporada em curso, o piloto adiantou que nas próximas semanas será divulgado com maior detalhe o programa desportivo para o restante ano: “Nas próximas semanas vamos dar a conhecer o programa de 2026, mais detalhado, que deverá incluir uma ou duas provas do CPR e três ralis Legend: o Spirit, o Luso-Bussaco e uma participação além-fronteiras.” A confirmação de uma participação internacional abre perspetivas interessantes para um piloto que, mesmo na fase mais experiente da sua carreira, continua a procurar novos desafios e a impor-se com autoridade nas provas em que compete.