A Serra da Freita voltou a ser palco de emoções fortes no passado fim de semana, com a estreia do Freita – Mythic Rally Stage, um evento que recuperou o espírito da classificativa mais icónica dos ralis nacionais e que marcou o arranque oficial do projecto Mythic Rally Stage da XRacing. Dois dias de evocação, espectáculo e memória devolveram à Freita o protagonismo que há muito lhe pertence, numa edição inaugural que juntou pilotos de referência, máquinas lendárias e uma adesão massiva do público.

Logo no primeiro dia, apesar de não haver ainda acção em estrada, Arouca viveu um ambiente de festa. A exposição das máquinas no centro da vila transformou-se num verdadeiro “banho de multidão”, com centenas de adeptos a reencontrarem carros que marcaram gerações. A tertúlia “A classificativa da Freita”, realizada na Biblioteca Municipal, tornou-se um dos momentos altos, reunindo nomes como Fernando Peres, Ricardo Caldeira, Jorge Ortigão, Fernando Batista, Nuno Pinto, Pedro Leal e Miguel Paião. Entre episódios de superação, histórias de bastidores e memórias carregadas de emoção, ficou clara a ligação profunda entre pilotos e a serra que moldou tantas páginas da história dos ralis portugueses. A Presidente da Câmara Municipal de Arouca, Margarida Belém, marcou presença e participou activamente na conversa, reforçando o simbolismo do reencontro com a Freita.
O dia terminou com a Partida Simbólica, que voltou a aproximar público e participantes num ambiente descontraído e celebrativo, antecipando o que viria a ser uma jornada intensa na serra.
No domingo, a Freita voltou a ser Freita. Três passagens pela classificativa trouxeram de volta a exigência técnica, a imprevisibilidade e o fascínio que sempre caracterizaram este troço. O muito público espalhado ao longo do percurso assistiu a momentos de espectáculo puro, mas também a episódios que recordam que a Freita nunca facilita. Fernando Peres, tricampeão nacional, sofreu uma saída de estrada na segunda passagem, obrigando a um ritmo mais lento numa zona do troço na derradeira ronda. Ainda assim, o piloto fez questão de sublinhar o impacto positivo do evento: “foi uma festa enorme, que mostrou a força dos ralis, o que movimentam e as emoções que despertam. Conseguimos também passar uma imagem muito real do que são os ralis a quem decide, e saio daqui com a certeza de que vamos ter ralis durante muitos anos”.
Outros pilotos também viveram momentos inesperados, como Ruben Lopes, que viu o acelerador do seu Porsche 911 SC ficar preso à saída de uma curva. O problema foi resolvido com criatividade e humor: “foi um susto grande, mas conseguimos resolver com ‘engenharia caseira’, usando um cinto elástico para fazer o retorno do acelerador, o que nos permitiu chegar à assistência”. A Freita, fiel à sua reputação, voltou a exigir engenho, coragem e capacidade de improviso.

Entre os protagonistas mais aguardados esteve Nuno Pinto, que levou à serra um Audi Sport Quattro S1 E2, um Grupo B que nunca tinha passado pela Freita. A experiência foi intensa: “A Freita é ainda mais difícil do que imaginava. É difícil transmitir o quão exigente e até assustador pode ser explorar um carro destes neste troço, onde na zona do planalto atingimos os 210 km/h a explorar os 600 cavalos do motor! Mas foi um sonho concretizado”.
Também Vítor Pascoal, ao volante de um Porsche 991 GT3, destacou a singularidade do percurso: “é um troço extremamente técnico, com variações constantes. Num carro destes, há momentos em que parece um Safari”.
E houve ainda espaço para momentos de pura emoção, como o regresso de Fernando Batista, de 87 anos, que voltou a enfrentar a Freita com a serenidade de quem conhece cada curva: “passei um dia que não esquecerei, voltando a uma classificativa que me traz muitas memórias e que continua a ter uma exigência tremenda”.

Do lado da organização, o balanço não podia ser mais positivo. Pedro Ortigão, responsável da XRacing, sublinhou a força desta primeira edição: “estamos muito satisfeitos com esta primeira edição. A adesão do público, tanto na partida simbólica como na classificativa, foi extraordinária e é o melhor reconhecimento que poderíamos ter”. E deixou já uma promessa para o futuro: “em 2027 queremos voltar, fazer ainda melhor e tentar concretizar o objectivo de uma passagem nocturna, para recriar ainda mais a tradição da Freita”.
O Município de Arouca reforçou igualmente o impacto do evento. Para Margarida Belém, “foi uma aposta ganha, num evento que valoriza a história e a identidade do território, conciliando natureza, património e desporto”. A autarca viveu ainda a experiência de ser co-piloto de Fernando Peres, descrevendo-a como “extraordinária, percebendo de perto a adrenalina e a exigência da classificativa”.
Com uma estreia que superou expectativas, o Freita – Mythic Rally Stage afirmou-se como um novo capítulo na preservação e celebração da memória dos ralis em Portugal. A Freita voltou a ser palco de emoções, histórias e velocidade — e, depois deste reencontro, a contagem decrescente para 2027 já começou.

