A Sardenha vai ser, pela primeira vez em outubro, palco do desfecho do Campeonato do Mundo de Ralis. O Rali Itália Sardenha, 13.ª e derradeira ronda da temporada 2026, disputa-se de 1 a 4 de outubro, com base em Alghero, e vai decidir quem sucede a Sébastien Ogier e Elfyn Evans na lista de campeões da FIA — com a garantia de que o título vai parar, pela sétima vez em oito anos, às mãos de um piloto da Toyota Gazoo Racing.

A prova chega numa condição inédita: depois de a FIA e o promotor do WRC terem confirmado que o Rali da Arábia Saudita, previsto para novembro, não vai integrar afinal o calendário deste ano, a Sardenha passa a ser a última etapa da temporada — e a despedida europeia do atual Toyota GR Yaris Rally1, antes da chegada dos novos regulamentos técnicos em 2027. Ao longo de cinco épocas, o GR Yaris somou 47 vitórias, um recorde absoluto para qualquer modelo desde que o WRC existe.
Três Toyota, um só título
Com 35 pontos ainda em jogo, Elfyn Evans lidera o campeonato com 17 pontos de vantagem sobre o finlandês Sami Pajari e 21 sobre o sueco Oliver Solberg — um dos três terá, pela primeira vez na carreira, a coroa mundial ao alcance. O galês, que venceu na Suécia e no Japão e lidera desde a ronda das Canárias em abril, resume assim a estratégia: a equipa vai simplesmente correr “como um rali normal”, cientes de que tudo pode ficar em aberto até domingo.

Pajari, que fez história ao vencer três ralis seguidos (Estónia, Finlândia e Paraguai), diz sentir-se confortável na luta pelo título, enquanto Solberg reconhece que recuperar a diferença para Evans “numa só prova” é um desafio grande, mas garante que a equipa “vai dar tudo” numa Sardenha onde já venceu em WRC2.
Também presente estará Sébastien Ogier, nove vezes campeão do mundo e o piloto mais vitorioso de sempre na ilha (cinco triunfos, o último em 2025), que vai bater o recorde de participações no WRC ao alinhar na sua 214.ª prova. Sem hipóteses matemáticas de título, Ogier assume que o objetivo passa por “desfrutar” do carro pela última vez e tentar fechar a época com mais uma vitória. Takamoto Katsuta, que este ano já venceu no Quénia e na Croácia — tornando-se o primeiro japonês a liderar o Mundial —, reencontra o copiloto Aaron Johnston, recuperado de uma lesão na clavícula.
O diretor da equipa, Jari-Matti Latvala, resume o espírito: garantir um carro fiável e competitivo para os três candidatos, num rali “difícil, com muitas pedras”, onde a gestão de risco vai pesar tanto quanto a velocidade.
Hyundai, entre a experiência e o segundo lugar já quase garantido nos construtores
Sem Ott Tänak, que decidiu fazer uma pausa na competição em 2026, a Hyundai Shell Mobis apostou este ano numa dupla fixa — Thierry Neuville e Adrien Fourmaux — com o terceiro i20 N Rally1 repartido ao longo da época entre Dani Sordo, Esapekka Lappi e Hayden Paddon. Fora da discussão pelo título de pilotos, a equipa chega à Sardenha com o segundo lugar nos construtores praticamente garantido: os 410 pontos somados até ao Chile deixam a Hyundai bem destacada do segundo carro da própria Toyota (227) e da M-Sport (152), atrás apenas do domínio incontestável do construtor japonês, que já assegurou o título.

Curiosamente, é Fourmaux, e não Neuville, quem lidera a equipa na tabela de pilotos: o francês soma 167 pontos e ocupa o 5.º lugar do Mundial, depois de ter subido ao pódio no Chile pela segunda prova seguida (3.º lugar), enquanto o belga, com 129 pontos, é apenas 7.º, após um acidente que o tirou da corrida no sábado da prova sul-americana. No final do Chile, Fourmaux assumiu que a Sardenha passa a ser o novo foco da equipa, lembrando que costuma ser rápido na ilha e que esperava por isso “uma boa prova”. Já o diretor desportivo da Hyundai no WRC, Andrew Wheatley, depois de felicitar a Toyota pelo título de construtores já assegurado, resumiu o objetivo para o que resta da temporada: “voltar à carga e lutar por ganhar as duas provas restantes”. Sardenha é, aliás, um dos ralis historicamente mais fortes para a Hyundai, que já lá venceu em anos anteriores tanto com Neuville como com Tänak.
M-Sport, a nova geração irlandesa
A representar a Ford está a equipa privada M-Sport, que em 2026 apostou tudo na juventude: Josh McErlean e Eoin Treacy, na sua segunda temporada completa em Rally1, e Jon Armstrong com Shane Byrne, promovidos do ERC e a estrear-se este ano na categoria rainha. É a primeira vez que a equipa de Malcolm Wilson alinha uma dupla totalmente irlandesa, fruto da parceria com a Motorsport Ireland Rally Academy — um projeto claramente virado para o futuro, mais do que para resultados imediatos, mas que chega à Sardenha à procura de terminar a época em crescendo com o Ford Puma Rally1.

O percurso
Depois de anos em Olbia, a organização regressa a Alghero, cidade que recebe pela décima vez a sede do rali. O arranque faz-se na quinta-feira à noite, com uma super especial no circuito de ralicross de Ittiri. Sexta-feira traz duas voltas a três classificativas a nordeste da ilha, separadas por assistência; sábado repete a fórmula, com destaque para Solorche, uma classificativa totalmente inédita no calendário. Domingo fecha com duas provas a noroeste, repetidas, culminando na tradicional Power Stage de Sassari-Argentiera. Depois de mais de duas décadas ligado à Sardenha, o WRC troca de lugar no calendário com o Rali do Japão a partir de 2027, ano em que a prova italiana cede o seu lugar ao novo Rali di Roma Capitale.
Com o título de construtores já assegurado pela Toyota e o de pilotos por decidir entre três dos seus próprios homens, a Sardenha promete um fecho de temporada raro: emocionante apesar de o resultado coletivo já estar resolvido, e decisivo para quem, pela primeira vez, sonha erguer o troféu de campeão do mundo.
Fotos: PureWRC

