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Portugueses resistem à dureza da 4.ª etapa e Dakar ganha novo rumo

A quarta etapa do Dakar Rally 2026, disputada em torno de AlUla, voltou a demonstrar porque esta prova continua a ser o maior teste de resistência do mundo. Com mais de 400 quilómetros cronometrados, terreno variado, poeira intensa e uma primeira metade de etapa maratona, o dia ficou marcado por mudanças importantes na classificação geral, vitórias expressivas e também por contratempos que afastaram protagonistas de peso. Entre tudo isto, os portugueses voltaram a mostrar consistência, resiliência e inteligência estratégica num dia que exigiu sangue-frio.

202 LATEGAN Henk (rsa), CUMMINGS Brett (rsa), Toyota Gazoo Racing W2RC, Toyota

No setor FIA Ultimate, Henk Lategan e Brett Cummings (Toyota Gazoo Racing W2RC) dominaram por completo a especial, assinando um tempo de 4h47m08s e conquistando a sua quinta vitória em etapas do Dakar. O sul-africano decidiu “atacar para quebrar o ciclo de furos”, como descreveu a organização, e a aposta compensou: além do triunfo, assumiu também a liderança geral com 3m55s de vantagem sobre Nasser Al‑Attiyah. O qatari, ao volante do Dacia Sandrider, foi segundo na etapa, enquanto Marek Goczał completou o pódio, seguido pelo filho Eryk e por Sébastien Loeb, que continua a recuperar terreno.

201 AL RAJHI Yazeed (ksa), GOTTSCHALK Timo (ger), Yazeed Racing, Overdrive Racing, Toyota

O dia, contudo, ficou marcado pela desistência de Yazeed Al‑Rajhi, vencedor do Dakar 2025. Três furos e problemas mecânicos ditaram o fim da sua corrida ao km 234. O saudita explicou: “Esperámos talvez meia hora até o Seth chegar e nos dar um pneu. Continuámos, mas já estávamos muito atrasados. Seria muito difícil recuperar esse tempo e, mesmo que tentasse, estaria a correr um grande risco.” O navegador Timo Gottschalk reforçou a decisão: “Faz mais sentido não expor a recuperação das lesões nas costas a qualquer risco e regressar em força nas próximas provas.”

300 CAVIGLIASSO Nicolas (arg), PERTEGARINI Valentina (arg), Vertical Motorsport, Taurus

Nos Challenger, Nicolás Cavigliasso (Taurus/Vertical Motorsport) conquistou a sua primeira vitória desta edição e a sexta da carreira na categoria, impondo-se com autoridade após assumir o comando ao km 234. O argentino tornou-se o quinto vencedor diferente em cinco especiais, num Dakar particularmente imprevisível. Pau Navarro foi segundo e Dania Akeel, finalmente livre de problemas, fechou o pódio. Yasir Seaidan manteve a liderança geral, mas vê Navarro a apenas 45 segundos e Cavigliasso a 6m45s.

401 HEGER Brock (usa), EDDY Max (usa), Loeb Fraymedia Motorsport – RZR Factory Racing

Nos SSV, Brock Heger (Loeb FrayMédia Motorsport – RZR Factory Racing) voltou a impor um ritmo absolutamente avassalador, conquistando a sua terceira vitória desta edição e reforçando de forma expressiva a liderança da categoria. O norte‑americano ampliou a vantagem para mais de meia hora sobre Xavier de Soultrait, enquanto os portugueses João Monteiro e João Dias brilharam ao garantir o 2.º e 3.º lugares da etapa, respetivamente, consolidando a forte presença lusa entre os protagonistas. Dia bem mais difícil teve Gonçalo Guerreiro, também da estrutura Loeb FrayMédia, que enfrentou problemas técnicos e terminou apenas no 19.º posto, a 1h13m07s do colega de equipa Heger, caindo para a 7.ª posição da geral, agora a 1h13m50s do comando. Já Alexandre Pinto (Old Friends Rally Team) viveu a etapa em sentido inverso: assinou o 7.º melhor tempo e ascendeu ao 3.º lugar da classificação geral dos SSV, a 47m56s do líder Heger, reforçando a sua candidatura ao pódio e mantendo-se como o melhor representante do W2RC na categoria.

500 PETERHANSEL Stéphane (fra), METGE Michaël (fra), Defender Rally, Defender,

Na Stock, a Defender Rally voltou a monopolizar o pódio da etapa pela terceira vez consecutiva. Stéphane Peterhansel venceu novamente, seguido por Rokas Baciuška e Sara Price. O lituano mantém a liderança geral com mais de 40 minutos de vantagem, mas a luta pelo segundo lugar promete ser intensa: apenas 79 segundos separam Ronald Basso de Peterhansel.

600 MACIK Martin (cze), TOMASEK Frantisek (cze), SVANDA David (cze), MM Technology, MM Technology Iveco,

Nos camiões, Martin Macík (MM Technology Iveco Dakar Evo 4) venceu a etapa e assumiu a liderança geral, ultrapassando Mitchel van den Brink. Vaidotas Žala foi terceiro e recuperou parte do tempo perdido no dia anterior. A categoria continua a ser uma das mais imprevisíveis, com quatro vencedores diferentes em quatro dias.

Os portugueses em destaque

240 FERREIRA Joao (por), PALMEIRO Filipe (por), Toyota Gazoo Racing, Toyota

A participação portuguesa voltou a ser marcada por consistência e inteligência estratégica. João Ferreira, ao volante do Toyota Hilux da Toyota Gazoo Racing SA, terminou a etapa no 17.º posto, apesar de uma posição de partida desfavorável. O piloto explicou: “Apanhámos tráfego desde cedo e não havia grande margem para arriscar sem comprometer o essencial. O Dakar está longe de ser um sprint. A consistência e a capacidade de chegar ao fim continuam a ser determinantes.”

#248 GAMEIRO Maria Luis (Por), ROMERO Rosa (Spn), X-raid MINI JCW, Mini

Maria Luís Gameiro (X‑Raid Team) completou uma das etapas mais sólidas da sua carreira no Dakar, terminando sem furos e com o MINI pronto para a segunda metade da maratona. “Fizemos praticamente 180 km sempre no pó, com visibilidade reduzida. Ainda parámos para ajudar o Guillaume e tivemos um pequeno percalço de navegação, mas superámos tudo. O resultado deixa-nos satisfeitas.”

400 PINTO Alexandre (por), OLIVEIRA Bernardo (por), Old Friends Rally Team, Polaris, SSV

Alexandre Pinto (Old Friends Rally Team) subiu ao terceiro lugar da geral SSV e mantém a liderança do W2RC, empatado em pontos com outro piloto. Na etapa, foi 7.º absoluto e 5.º entre os inscritos no Mundial. Por se tratar de uma maratona, os pilotos estão isolados no deserto, sem assistência externa, o que torna o feito ainda mais relevante.

Rui Carneiro (MMP) terminou no top 40 da etapa e mantém-se sólido na classificação geral, enquanto Helder Rodrigues (Santag Racing) continua a recuperar tempo após um início complicado.

O ambiente nos bastidores

No acampamento da Toyota Gazoo Racing, o Team Manager Jordi Duran descreveu um dia de relativa calma para os mecânicos, apesar dos furos que continuam a afetar vários pilotos: “João já teve dois furos ao km 140. Saood também teve dois. Agora os mecânicos estão a verificar tudo e à espera do camião de assistência com pneus novos.”

Notas e estatísticas do dia

A organização destacou o simbolismo do número 4 nesta etapa: quatro vencedores diferentes nos camiões, quatro líderes distintos na Ultimate em quatro dias — algo que não acontecia desde 2014 — e quatro fabricantes diferentes no topo da geral (Mini, Dacia, Ford e Toyota). Também na Challenger, quatro vencedores em quatro etapas antes do triunfo de Cavigliasso.

A etapa reforçou ainda o impacto da família Goczał, com três carros no top 6 da Ultimate e desempenhos consistentes que alimentam a ambição declarada: “O objetivo é ocupar o pódio; a ordem é irrelevante.”

A 4.ª etapa do Dakar 2026 confirmou a dureza extrema desta edição e redesenhou a luta pela vitória em várias categorias. Lategan assume o comando na Ultimate, Cavigliasso relança a Challenger, Heger domina os SSV, Peterhansel pressiona na Stock e Macík toma o controlo nos camiões. Entre tudo isto, os portugueses continuam a mostrar maturidade, resistência e capacidade de adaptação — ingredientes essenciais para sobreviver ao Dakar e, quem sabe, surpreender até ao final.

Etapa 5 — A segunda metade da maratona rumo a Ha’il

A Etapa 5 do Dakar 2026 marca a conclusão da primeira jornada maratona e promete ser decisiva para quem conseguiu preservar a mecânica na véspera. A caravana parte do acampamento isolado no deserto e segue rumo a Ha’il, enfrentando 356 quilómetros cronometrados num traçado globalmente mais rápido do que o da etapa anterior, mas longe de ser simples. O percurso combina longas zonas de velocidade com sucessivas mudanças de direção, exigindo navegação precisa, e inclui ainda várias secções de terreno rochoso onde o risco de furos volta a ser elevado.

Sem assistência externa desde o final da Etapa 4, cada piloto e navegador terá de lidar com o estado em que deixou a máquina na noite anterior — um fator que poderá baralhar ainda mais as classificações. Para os líderes, será um exercício de controlo e gestão; para quem perdeu tempo, uma oportunidade de recuperar terreno antes de entrar na segunda metade do rali.

Os portugueses partem para esta etapa com ambições distintas mas bem vivas: João Ferreira procura manter a consistência que tem mostrado, Maria Luís Gameiro entra motivada após uma etapa sólida e sem danos no MINI, e Alexandre Pinto chega embalado pela subida ao 3.º lugar da geral dos SSV, numa fase em que a fiabilidade e a cabeça fria podem valer muito mais do que a velocidade pura.

A chegada a Ha’il deverá clarificar quem sobreviveu verdadeiramente à maratona — e quem pagará caro cada erro, cada furo ou cada minuto perdido na véspera.

Classificação da 4ª etapa

Classificação após a 4ª etapa