O Rally del Paraguay, décima primeira ronda do Mundial de Ralis (WRC) de 2026, ficou marcado por uma sexta-feira de autêntico caos — pneus a rebentar, delaminações em cadeia e vários favoritos a perder tempo precioso — e por um feito histórico: Sami Pajari tornou-se o primeiro piloto da história do WRC a vencer as suas três primeiras corridas consecutivas na elite dos ralis.

A prova, disputada entre 27 e 30 de agosto, teve como base a cidade de Encarnación, às margens do rio Paraná, naquele que foi o terceiro país sul-americano a receber uma ronda do WRC na era moderna, depois da Argentina e do Chile.
Pajari confirma o “hat-trick” histórico
O piloto finlandês da Toyota Gazoo Racing, de 24 anos, e o seu copiloto Marko Salminen somaram no Paraguai a terceira vitória seguida, depois dos triunfos na Estónia e na Finlândia nas últimas seis semanas. Pajari terminou com uma vantagem confortável de 25,8 segundos sobre o neozelandês Hayden Paddon (Hyundai), consolidando aquilo que já é descrito como um dos momentos mais marcantes da temporada.
“É um momento de muito orgulho, estou muito feliz”, afirmou Pajari na meta. Já mais tarde, resumiu assim o fim de semana: “Não foi um rali fácil, nem para os pilotos nem para a equipa. Construir um carro fiável é a chave do sucesso. É um momento de muito orgulho e estou muito feliz.” O finlandês acrescentou ainda sentir-se “muito bem” com a evolução na luta pelo título, lembrando que a equipa está “a tentar dar o seu melhor no campeonato”.
Com este resultado, Pajari subiu ao segundo lugar do Mundial de pilotos, agora a apenas 20 pontos do líder Elfyn Evans (196 contra 216), depois de a diferença ter chegado a ser de 30 pontos antes desta ronda.

Sexta-feira de loucos decide a corrida
O rali ficou desde cedo marcado pela instabilidade. Paddon liderou a prova nas fases iniciais — a sua primeira participação em piso de terra ao volante de um Hyundai Rally1 —, mas um furo no sexto troço fê-lo perder a liderança, ainda que tenha mantido o segundo lugar até ao fim. A entrada de Pajari na frente aconteceu quando o próprio Evans sofreu um furo no SS7, abrindo caminho ao finlandês.

Adrien Fourmaux, da Hyundai, protagonizou uma das recuperações mais espectaculares do fim de semana: depois de uma mudança de pneu e uma delaminação o terem deixado a 55 segundos do líder na sexta-feira, o francês encurtou a distância para apenas 3,3 segundos no sábado à noite, vencendo nove dos 22 troços disputados — quase o dobro de qualquer outro rival. No domingo garantiu o terceiro lugar do pódio, superando Evans por 5,1 segundos. “Foi um fim de semana incrível”, disse Fourmaux. “Estar a um minuto e 50 segundos da frente na sexta-feira à noite e regressar a menos de 50 segundos é simplesmente inacreditável.”
Noite difícil para Evans e desastre total para Ogier
Elfyn Evans, líder do campeonato, terminou apenas em quarto lugar, penalizado por uma delaminação logo na sexta-feira. O galês somou três pontos extra através da Power Stage e da classificação “Super Sunday”, mas admitiu insatisfação: “O fim de semana começou bem, mas depois não conseguimos entrar num ritmo melhor. Não estou nada satisfeito.” Questionado sobre os pontos-bónus, resumiu: “não é suficiente, infelizmente”.

Pior ainda foi o rali de Sébastien Ogier. O francês, que já reconhecera após o acidente na Finlândia que as suas hipóteses de título estavam “mais ou menos perdidas”, sofreu dois furos em dois troços consecutivos e, no dia seguinte, um dano na suspensão que o obrigou a abandonar. É a terceira vez esta época — e a segunda consecutiva — que o nove vezes campeão do mundo fica sem pontuar, vendo o seu défice para a liderança disparar para 68 pontos, com apenas 105 ainda em disputa.
Oliver Solberg terminou em quinto e venceu a Power Stage, mantendo-se a 41 pontos de Evans. Josh McErlean, da M-Sport Ford, foi sexto, num fim de semana em que a sua equipa chegou a reparar uma alavanca de velocidades partida com… uma chave inglesa. Já o companheiro de equipa Jon Armstrong viu a borracha de um pneu furado danificar os travões dianteiros do seu Puma Rally1, provocando um violento acidente contra um talude; no domingo destruiu ainda a suspensão traseira e acabou por abandonar.

A prova ficou também marcada por um susto: o penúltimo troço foi interrompido com bandeira vermelha após um acidente envolvendo Takamoto Katsuta e o seu copiloto Aaron Johnston. Ambos foram transportados ao hospital por precaução, tendo tido alta pouco depois.
Festa paraguaia em casa
Se para os favoritos ao título o Paraguai trouxe reviravoltas, para os anfitriões foi uma verdadeira festa. Diego Domínguez e Rogelio Peñate conquistaram, em casa, a primeira vitória de sempre de um paraguaio na categoria WRC2, terminando à frente do britânico Gus Greensmith e em sétimo lugar da geral. “Esta vitória é para todos eles”, disse Domínguez, apontando para os adeptos paraguaios junto à meta da Power Stage.

Na luta pelo título de WRC2, o estónio Robert Virves — que já tem praticamente uma mão no troféu — acabou por sair de estrada logo no primeiro troço do rali, mostrando que também ele é humano. Como a vantagem acumulada ao longo da época é larga, o desaire não deverá ter grandes repercussões, mas adia a possível confirmação do título para a próxima ronda.
O Mundial de Ralis segue agora para a América do Sul, com o Rally Chile Biobío, entre 10 e 13 de setembro, naquele que poderá ser já o palco da coroação de Virves em WRC2 — e mais um capítulo na luta cada vez mais renhida entre Evans e Pajari pelo título de pilotos.
Fotos: DR


