Notícias do Mundo Motorizado

O “Dakar” não vai regressar a Portugal

Era bom, mas não vai acontecer! O Rali Dakar não regressará nem a Portugal, nem tão pouco a África, ao contrário do que sugerem algumas notícias que têm vindo a ser publicadas, sobretudo entre nós. Infelizmente, trata-se da mais pura especulação…

Sem querer entrar em juízos de valor, o que distingue o jornalismo é o rigor e a seriedade da informação. É esse o nosso compromisso com o leitor. Com a sociedade. E que eu assumi há 47 anos, que se completam dentro de menos de um mês, quando comecei a escrever para jornais nacionais, bem como desde 1993, quando passei a dirigir a revista Todo Terreno.

Vem isto a propósito de responder aos inúmeros contactos que recebemos sobre o futuro próximo do Rali Dakar e as perspectivas da prova regressar ao nosso país e ao seu figurino africano da fase final. Todos nos preocupamos com o que se está a passar no Golfo Pérsico e com a possibilidade do conflito entre Estados Unidos da América e Irão poder contaminar um projecto como o Rali Dakar. Aliada dos EUA, a Arábia Saudita também está na mira de ataques iranianos, seja directamente, seja por intermédio dos rebeldes Houtis, do Yémen, que também estão em confronto assumido com os seus vizinhos.

Todavia, sem negar a instabilidade, esta realidade não chega para que possamos considerar como “cenário de guerra” os lugares de passagem previstos para o próximo Rali Dakar.

E a seriedade com que desempenhamos o nosso trabalho, enquanto jornalistas, não nos permite cair na tentação de alimentar especulações, mesmo que isso nos possa trazer audiências alargadas e volumes de tráfego espectaculares.

Assim, a melhor resposta que temos para aqueles que nos perguntaram o que se está a passar é esta: nada! De acordo com a ASO, os organizadores do “Dakar”, a próxima edição está neste momento totalmente definida e a contagem decrescente para a sua realização já decorre. Precisamente porque toda a estrutura logística que sustenta um evento desta natureza, que durante duas semanas instala uma autêntica cidade que se move diversas vezes pelos pontos estratégicos de cada etapa, demora longos meses a ser planeada. E depois, requer uma montagem precisa que reflecte essa atempada preparação. É o que garante, por exemplo, que em cada acampamento haverá comida e condições para servir todos os dias alguns milhares de refeições, ou até que as viaturas participantes sejam abastecidas de combustível em todos os pontos essenciais. E isto para simplificarmos os exemplos.

Claro que o facto de estar tudo a ser preparado nesse sentido não nos garante que a prova se possa realizar como previsto. Mas tudo aponta para que isso seja o mais provável. E há um detalhe fundamental que nos faz acreditar nisso: a organização é francesa, mas o promotor é a própria Arábia Saudita. Ou seja, neste processo, quem “quer, pode e manda” são os próprios promotores da prova. E se eles confiam que é para avançar, será isso que se fará. Sem constrangimentos como sucederam no passado, quando as seguradoras retiraram a sua confiança à prova, pois agora é internamente que tudo isso é assegurado. O Rali Dakar tornou-se uma causa saudita, uma preciosa montra da evolução que este país quer exibir ao mundo. Cancelar a prova seria um exemplo indesejável de falta de controlo da situação, coisa que teria um preço muito alto para o orgulho saudita.

Mas, suponhamos que o pior cenário acontece e a prova é cancelada na Arábia Saudita. Mesmo que isso acontecesse já amanhã, seria impossível redefinir e desenhar a prova nos pouco mais de três meses que faltam para a sua realização.

E admitindo até que as autoridades portuguesas, marroquinas, mauritanas e senegalesas acolhiam o projecto de braços abertos – o que não acredito que acontecesse… – já não haveria tempo para fazer a prova na sua data tradicional. Não era impossível desenhar um percurso até Dakar, mas validá-lo junto das autoridades exige muito mais do que boa vontade.

Há um detalhe fundamental que escapa a quem defende que a prova voltará às suas raízes: quem financiaria a prova? Os milhões envolvidos já não são os de 2008. E hoje, nem Portugal, por muita vontade, teria condições para assumir esse compromisso. Muito menos os países africanos, que ao longo da história do Rali Dakar apenas cobraram, elevando a conta ano após ano. Hoje seria insuportável. E mais não dizemos, que já está respondido!