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GWM de olhos postos no Dakar 2027: o deserto como laboratório

A Great Wall Motors (GWM) anunciou o arranque de uma nova fase na sua estratégia internacional de competição. A fabricante chinesa utiliza o Taklimakan Rally 2026 — uma prova de rally-raid conhecida como o “Dakar do Oriente” pela sua extrema exigência em termos de terreno, navegação e resistência mecânica — como plataforma de preparação para um dos objectivos mais ambiciosos da marca: o Dakar 2027.

A participação da GWM no Taklimakan não é uma incursão pontual no mundo da competição. A empresa olha para o off-road de alto nível como um verdadeiro laboratório a céu aberto, onde testa soluções técnicas, avalia o desempenho dos seus veículos em condições extremas e alimenta uma cultura de engenharia assente na investigação através da competição. A ideia é simples na formulação, mas ambiciosa na execução: o deserto serve de banco de provas para tecnologias que poderão vir a integrar futuros produtos de série.

No centro desta estratégia está o Presidente Wey, cujo envolvimento no projecto vai muito além do simbolismo corporativo. O líder da marca esteve pessoalmente em prova, ao volante do Haval H9 nº 208, na corrida de resistência de Dunhuang — uma prova que atravessa o coração do deserto de Taklimakan, no noroeste da China. Depois de concluir a prova, lançou uma convocatória global dirigida a pilotos internacionais de rally-raid e, a 9 de maio, recebeu-os em Baoding, sede histórica da GWM, numa jornada de intercâmbio que incluiu visita às instalações da marca e uma reunião com responsáveis da empresa centrada na evolução do rally-raid internacional e no papel da competição enquanto ferramenta de desenvolvimento tecnológico.

Carlos Sousa com a Great Wall no Dakar 2014

A ambição da GWM no Dakar não nasce do nada. A marca chinesa tem uma ligação real  à prova mais dura do mundo, e foi precisamente um piloto português a protagonizar alguns dos momentos mais marcantes dessa história. Carlos Sousa alinhou pela primeira vez ao serviço da Team Great Wall Motors no Dakar 2012, ao volante de um SUV Haval, depois das suas passagens por marcas como a Mitsubishi, a Nissan e a Volkswagen. A parceria revelou-se imediatamente promissora, com o piloto a concluir a primeira semana num excelente oitavo lugar — o melhor resultado de sempre de um construtor chinês na prova até então. Mas o momento verdadeiramente histórico chegaria dois anos depois. Em 2014, Carlos Sousa — veterano com um quarto lugar no Dakar de 2003, quando a prova ainda se disputava em solo africano — regressou às andanças de outros tempos ao volante do SUV Haval H8. Ao lado do navegador Miguel Ramalho, venceu a primeira etapa da prova, cumprindo os 180 quilómetros cronometrados entre Rosario e San Luis em 2h20m36s, batendo nomes como Nasser Al-Attiyah e Carlos Sainz. Foi a primeira vez na história que uma viatura de um construtor chinês liderava um Dakar. A Great Wall manteve o programa de competição até 2015, interrompendo-o depois por mais de uma década. É precisamente esse capítulo que a GWM pretende agora reabrir — com maior ambição, novos pilotos e tecnologia híbrida —, numa história que, afinal, os portugueses já conhecem bem.

O plantel de pilotos internacionais reunido pela GWM é revelador da seriedade com que a marca aborda este projecto. O catalão Gerard Farrés, veterano dos rally-raid com ampla experiência em provas de longa distância e vários pódios no Dakar, é um dos nomes de referência do grupo. Ao seu lado surge Pau Navarro, outro espanhol, considerado um dos jovens talentos mais promissores da modalidade. Do outro lado do Atlântico vem Nicolas Cavigliasso, o argentino que fez história no Dakar ao sagrar-se campeão em 2019 na categoria de quads e, mais recentemente, em 2025 na categoria Challenger — um percurso que o torna numa das referências da competição. Por fim, a italiana Rebecca Busi representa a crescente presença feminina no off-road de alto nível, sendo uma das figuras emergentes da modalidade.

A diversidade de perfis não é casual. A GWM procura construir uma plataforma de intercâmbio competitivo entre pilotos de diferentes nacionalidades, culturas e disciplinas, combinando experiência consolidada com talento em ascensão — e retirando, de cada um deles, contributos para o desenvolvimento técnico e para a projecção internacional da marca.

O objectivo de longo prazo da GWM é chegar ao Dakar na categoria T1+, mas para 2027 a entrada será feita pela categoria Stock, com o novo GWM Tank 700. O grande desafio será defrontar a Defender, a marca que venceu tudo o que havia para vencer na categoria Stock. Para uma marca que regressa ao Dakar após dez anos de ausência, começar pela categoria de veículos de produção é ao mesmo tempo uma escolha humilde e estratégica: a GWM não quer apenas aparecer — quer aprender, validar tecnologia e, a prazo, subir de divisão. A propensão para a categoria Stock já era visível no Taklimakan Rally, onde a marca compete com veículos de produção e onde obteve resultados que servem de banco de provas para o desenvolvimento.

O Taklimakan Rally é, por si só, uma prova de referência no calendário asiático de rally-raid. Percorre um dos desertos mais hostis do mundo, com troços de navegação exigente, grandes distâncias entre assistências e condições de temperatura e terreno que testam ao limite qualquer veículo e qualquer equipa. Para a GWM, é exactamente esse carácter extremo que torna a prova interessante: é aí, longe dos circuitos controlados, que a fiabilidade se mede a sério.

Com esta iniciativa, a GWM traça uma hoja de ruta — uma folha de rota — que combina liderança corporativa, talento internacional e desenvolvimento tecnológico. Uma estratégia com que a marca não ambiciona apenas competir, mas construir o alicerce de uma nova etapa na sua presença global no todo-terreno. O Dakar 2027 é o grande horizonte. O Taklimakan 2026 é o primeiro passo a sério nessa direcção.

GWM Dakar 2027
GWM Dakar 2027
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