O mundo do automobilismo está em polvorosa com a participação de Max Verstappen nas 24 Horas do Nürburgring. Quádruplo campeão do mundo de Fórmula 1, o holandês trocou por um fim de semana as asfaltos lustrosos do Grande Circo pelo brutal “Inferno Verde” da Renânia, atraindo câmaras e titulares de todo o planeta. A narrativa é sedutora: e se ele vencer? Seria apenas o segundo piloto a conquistar o título mundial de F1 e as 24 Horas do Nürburgring — depois de Niki Lauda, que o fez uma vez.

Uma vez… Há um piloto português que o fez cinco…
Chama-se Pedro Lamy. Nasceu a 20 de março de 1972 em Aldeia Galega da Merceana, no concelho de Alenquer. E a história da sua carreira é, simultaneamente, um dos capítulos mais ricos e um dos mais injustamente ignorados do desporto motorizado mundial.
Um prodígio desde criança
Antes de chegar aos automóveis, Lamy já acumulava troféus nas mini-motos. Sagrou-se campeão nacional por cinco vezes consecutivas, entre 1977 e 1981, adicionando ainda títulos de mini-motocross. A velocidade nunca foi acaso — era vocação.
A transição para as quatro rodas revelou um talento fora do comum. Em 1989, com apenas 17 anos, venceu o Campeonato Nacional de Fórmula Ford. Seguiram-se o Campeonato Europeu de Fórmula Opel-Lotus, em 1991, e — o feito que o catapultou para o mapa europeu — o Campeonato Alemão de Fórmula 3, em 1992, onde derrotou Marco Werner. Nesse mesmo ano, venceu o prestigiado Masters de Fórmula 3 em Zandvoort, numa das corridas mais competitivas do calendário de monolugares. Era um jovem de 21 anos com o mundo inteiro pela frente.

A Fórmula 1 e o destino implacável
Em 1993, Pedro Lamy estreou-se na Fórmula 1 pela Lotus, substituindo Alessandro Zanardi nas quatro últimas corridas da temporada. O desempenho foi suficiente para garantir um contrato para a época seguinte.
Mas maio de 1994 — o mês mais negro da história da Fórmula 1, que viria a ceifar a vida de Ayrton Senna em Imola — também seria cruel para Lamy. Numa sessão de testes privados em Silverstone, sofreu um violento acidente que lhe partiu as duas pernas e os dois pulsos. Ficou meses internado numa clínica na Suíça. O regresso parecia improvável.
Lamy regressou. Em 1995, assinou pela Minardi e, no Grande Prémio da Austrália, em Adelaide, conquistou o único ponto da equipa nessa temporada — tornando-se o primeiro piloto português a pontuar num Campeonato do Mundo de Fórmula 1. Partiu da 17.ª posição, rodou a três voltas do vencedor Damon Hill, e chegou ao sexto lugar. Simples assim, e extraordinário assim.
Após 32 Grandes Prémios entre a Lotus e a Minardi, Lamy abandonou a F1 em 1996, desiludido com a falta de recursos e de apoios. Mas estava longe de ter terminado.
O rei do Nürburgring
O que se seguiu foi uma das carreiras em provas de resistência mais impressionantes de sempre. Lamy tornou-se piloto de fábrica de marcas como a Chrysler, a Mercedes-Benz e a Aston Martin, e começou a acumular vitórias em algumas das corridas mais duras do planeta.
As 24 Horas do Nürburgring — disputadas no lendário circuito de 25 quilómetros que atravessa a floresta alemã da Eifel, com mais de 160 curvas, desníveis abruptos e condições meteorológicas imprevisíveis — tornaram-se a sua sala do trono. Venceu em 2001, 2002, 2004, 2005 e 2010. Cinco vitórias. Uma marca que nenhum campeão de Fórmula 1 sequer se aproxima.
Enquanto Verstappen chega ao Nürburgring pela primeira vez com holofotes e escolta mediática, Lamy chegou pela primeira vez em 2001 e venceu logo à primeira tentativa. E depois voltou a vencer. E a vencer. E a vencer.
Um palmarés que desafia a imaginação
Mas o Nürburgring é apenas uma fatia de um currículo que atravessa décadas e disciplinas:
- 1992 — Campeão da Fórmula 3 alemã; vencedor do Masters de F3 em Zandvoort
- 1993 — Vencedor da corrida de rua de Pau na Fórmula 3000
- 1995 — Primeiro português a pontuar na Fórmula 1
- 1998 — Campeão FIA GT na classe GT2 ao volante do Chrysler Viper GTS-R
- 2001, 2002, 2004, 2005, 2010 — Cinco vitórias nas 24 Horas do Nürburgring
- 2003 — Campeão da V8Star Series
- 2004 — Campeão do Le Mans Endurance Series na classe GTS
- 2006 — Campeão do Le Mans Series GT1 com a Aston Martin
- 2007 — Campeão absoluto do Le Mans Series com a Peugeot 908 HDi FAP
- 2007 e 2011 — Dois segundos lugares absolutos nas 24 Horas de Le Mans
- 2012 — Vencedor da classe GTE-Am em Le Mans ao volante do Corvette C6.R
- 2017 — Campeão do WEC na classe LMGTE Am com a Aston Martin
É um palmarés que atravessa gerações. Quando Lamy venceu o seu primeiro título de mini-motos, em 1977, Verstappen ainda não havia nascido.
O homem por detrás dos troféus
O que torna a história de Pedro Lamy ainda mais fascinante é o contraste entre a dimensão da sua carreira e a sua quase total ausência do imaginário popular. Num desporto cada vez mais habitado por marcas pessoais e redes sociais, Lamy foi sempre o oposto: discreto, profissional, focado. Um piloto de outros tempos, no melhor sentido da expressão.
Hoje, com 53 anos, é comissário de corrida da FIA, tendo feito recentemente a estreia nessas funções num Grande Prémio de Fórmula 1. O “Inferno Verde” continua a existir. Os seus cinco troféus do Nürburgring também.
Max Verstappen pode muito bem vencer este fim de semana. Seria uma proeza notável e mereceria todas as manchetes. Mas algures, enquanto o mundo aplaude o holandês, vale a pena lembrar que um português já foi ao mesmo sítio e venceu cinco vezes.
Chama-se Pedro Lamy. E é tempo de Portugal relembrar o seu nome.
Fotos: Rui Reis

