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De Mévius surpreende, Ford perde o controlo e Portugal mostra força no arranque

O Dakar 2026 entrou verdadeiramente no seu ritmo competitivo com a disputa da primeira etapa, um sector selectivo de 305 quilómetros que rapidamente confirmou duas ideias: a prova continua imprevisível e a luta entre construtores está mais aberta do que nunca. O dia começou com Mattias Ekström a dominar, tal como fizera no prólogo, mas terminou com uma reviravolta que colocou Guillaume de Mévius e Mathieu Baumel no topo da classificação da categoria Ultimate — e com várias histórias paralelas a marcar um arranque de edição particularmente intenso.

222 DE MEVIUS Guillaume (bel), BAUMEL Mathieu (fra), X-raid MINI JCW, Mini

Ultimate: Ekström perde tudo nos últimos 40 km e De Mévius assina vitória inesperada

Durante grande parte da etapa, parecia inevitável que Mattias Ekström (Ford Racing) repetisse o triunfo do prólogo. O sueco liderou praticamente até aos últimos 40 quilómetros, mas uma quebra de ritmo e alguns minutos perdidos abriram a porta a uma recuperação fulgurante de Guillaume de Mévius (Mini JCW Rally 3.0i), que acabaria por vencer a etapa com 40 segundos de vantagem sobre Nasser Al-Attiyah (Dacia Sandrider T1+).

O belga-francês, que já tinha vencido uma etapa no Dakar 2025, descreveu o dia como “uma surpresa muito positiva”, sublinhando a dureza do percurso e a constante luta na poeira: “Foi um dia bom para nós, sem dúvida. Não era o objectivo ganhar a etapa, mas estivemos sempre no pó do Nasser e do Loeb. Passámos os dois, depois o Nasser voltou a passar-nos… foi um dia de muita poeira, mas bom. Ser primeiros no final foi uma boa surpresa.”

Mathieu Baumel, navegador experiente e agora também vencedor de etapa com De Mévius, reforçou a importância da navegação limpa, “Evitámos todas as pedras e não tivemos problemas. Amanhã abrimos a especial, por isso teremos mais trabalho, mas hoje foi perfeito.”

221 PROKOP Martin (cze), CHYTKA Viktor (cze), Orlen Jipocar Team, Ford

A Ford, que parecia encaminhada para um domínio absoluto, acabou por colocar cinco carros no Top 10, mas perdeu a vitória que parecia garantida. Martin Prokop, agora cliente Ford Racing com um Raptor T1+ preparado pela marca, fechou o pódio a 1m27s. Ekström caiu para quarto, empatado com Marek Goczał (Toyota Overdrive), ambos a 1m38s.

A Toyota, por sua vez, teve em Goczał o seu melhor representante, enquanto Carlos Sainz, Nani Roma e Mitch Guthrie mantiveram um ritmo sólido, mas sem capacidade para discutir a vitória.

Challenger: domínio total da Taurus e Rui Carneiro no Top 10

305 ZILLE David (arg), CESANA Sebastian (arg), BBR Motorsport, Taurus

Na Challenger, o dia foi de supremacia absoluta da Taurus. David Zille venceu a etapa com uma condução extremamente consistente, seguido de Paul Spierings — que teria vencido não fosse uma penalização de 70 segundos — e de Nicolás Cavigliasso, campeão em título da categoria.

Os nove primeiros classificados foram todos Taurus, numa demonstração de força impressionante. O único “intruso” no Top 10 foi o português Rui Carneiro (MMP T3 Rally-Raid), que terminou em décimo e confirmou o bom andamento que já mostrara no prólogo.

SV: Polaris domina e Alexandre Pinto brilha

407 DE SOULTRAIT Xavier (fra), BONNET Martin (fra), Loeb Fraymedia Motorsport RZR Factory Racing

A Polaris começou o Dakar 2026 com uma demonstração de força na categoria SSV. Xavier de Soultrait, campeão de 2024, venceu a etapa com autoridade, seguido de Alexandre Pinto (Old Friends Rally Team), actual campeão do mundo da categoria, que terminou a apenas 3m34s.

O português esteve sempre entre os mais rápidos e chegou a rodar como principal perseguidor directo do francês nos últimos quilómetros. Brock Heger, vencedor do Dakar 2025, fechou o pódio, também em Polaris.

Gonçalo Guerreiro, igualmente muito competitivo, terminou em quinto, a 4m33s do vencedor.

Stock: Baciuška imparável, Peterhansel com problemas

502 BACIUSKA Rokas (ltu), VIDAL Oriol (esp), Defender Rally, Defender

Na categoria Stock (T2), Rokas Baciuška voltou a mostrar porque é um dos talentos mais versáteis do rally-raid mundial. O lituano venceu com autoridade, deixando os Toyota Land Cruiser de Ronald Basso e Akira Miura a mais de sete minutos.

Stéphane Peterhansel, que chegou a liderar, enfrentou problemas mecânicos e perdeu quase 50 minutos. Sara Price, também em Defender, ficou parada à espera da assistência e perdeu mais de duas horas.

Camiões: Loprais vence apesar da penalização e Žala perde liderança nos últimos quilómetros

602 LOPRAIS Ales (cze), KRIPAL David (cze), STROSS Jiri (cze), Loprais Team De Rooy FPT, Iveco

Nos camiões, Aleš Loprais começou o Dakar com uma vitória sólida, mesmo depois de receber uma penalização de 130 segundos. O checo bateu Mitchel van den Brink por 1m47s, enquanto Martin Macík, campeão em título, perdeu muito tempo na segunda metade da etapa e terminou a mais de sete minutos.

Vaidotas Žala, que liderou grande parte do dia, sofreu uma quebra abrupta no final e caiu para quarto, apesar do excelente trabalho do navegador português Paulo Fiúza.

Participação portuguesa: um arranque consistente e com sinais muito positivos

240 FERREIRA Joao (por), PALMEIRO Filipe (por), Toyota Gazoo Racing, Toyota

Portugal teve um dia extremamente sólido em todas as categorias. João Ferreira e Filipe Palmeiro foram os melhores portugueses, terminando em 14.º da geral Ultimate, a 4m16s do vencedor. O piloto de Leiria destacou a dureza da navegação:

“Foi uma etapa longa, muito exigente do ponto de vista da navegação. Perdemos algum tempo ao ultrapassar pilotos mais lentos, mas mantivemos a concentração e seguimos a estratégia.” explicou o piloto apoiado pela Repsol Portugal no final da etapa, “Perdemos algum tempo ao ultrapassar pilotos mais lentos, mas fizemos escolhas conscientes e mantivemos a concentração. Havia zonas entre canyons onde era fácil perder referências. Optámos por um ritmo equilibrado, sem cometer riscos desnecessários, e conseguimos seguir a estratégia traçada para o dia. Amanhã, teoricamente, a desvantagem de hoje pode tornar‑se uma vantagem, porque a posição de partida será mais favorável para definir o ritmo da etapa.”

Filipe Palmeiro reforçou a importância de evitar erros, “Foi uma etapa limpa. Havia muitas pedras e muita gente teve furos. Nós não tivemos nenhum.”

400 PINTO Alexandre (por), OLIVEIRA Bernardo (por), Old Friends Rally Team, Polaris

Nos SSV, Alexandre Pinto foi segundo e Gonçalo Guerreiro quinto, ambos em Polaris, confirmando o excelente momento da armada portuguesa nesta categoria.

Rui Carneiro foi décimo na Challenger, enquanto Paulo Fiúza, a navegar Vaidotas Žala nos camiões, esteve em posição de pódio até aos quilómetros finais.

#248 GAMEIRO Maria Luís (Por), ROMERO Rosa (Esp), X-raid MINI JCW, Mini

Além das prestações de destaque de João Ferreira, Alexandre Pinto e Gonçalo Guerreiro, também Maria Luís Gameiro teve um início de Dakar marcado pela resiliência. A piloto portuguesa, acompanhada por Rosa Romero no MINI JCW T1+ da X‑Raid, concluiu a etapa inaugural no 56.º lugar da Ultimate, apesar de dois furos e de uma falha no ar condicionado que transformou o habitáculo num verdadeiro forno. Exausta no final, mas satisfeita por ter cumprido o plano, Maria Luís sublinhou que este primeiro dia foi “um misto de sensações”, explicando que “o calor dentro do carro tornou‑se insuportável e obrigou-nos a abrandar”, mas que, ainda assim, “o tempo acabou por não ser tão mau quanto antecipávamos”. A piloto reforçou ainda que este arranque serviu para “afinar algumas coisas dentro do carro e na gestão da corrida”, mantendo intacta a estratégia de consistência para os próximos dias.

No total, 11 equipas portuguesas terminaram a etapa, com desempenhos consistentes e sem incidentes graves, reforçando a presença nacional num Dakar que promete ser longo e exigente.

Amanhã: Etapa 2 – Yanbu → AlUla (5 de janeiro)

A segunda etapa do Dakar 2026 promete elevar significativamente o nível de exigência. Os concorrentes deixam a costa do Mar Vermelho para enfrentar quase 400 km cronometrados rumo a AlUla, entrando numa região marcada por montanhas recortadas, vales estreitos e sucessões de planaltos rochosos que obrigam a constantes mudanças de ritmo. O início da especial será rápido, mas rapidamente dará lugar a zonas técnicas, com pedras soltas, trilhos irregulares e navegação delicada entre formações rochosas — um cenário onde erros se pagam caro. Tal como na etapa inaugural, está prevista uma zona de assistência intermédia para ajustes de pneus e pequenas intervenções mecânicas, crucial num dia em que a diversidade de pisos poderá provocar furos, sobreaquecimento dos travões e desgaste acentuado das suspensões. A aproximação a AlUla, já em terreno mais aberto, deverá favorecer os pilotos mais confiantes em alta velocidade, mas a navegação continuará a ser determinante, sobretudo nas áreas onde as pistas se multiplicam e as referências visuais se tornam escassas. Será uma etapa completa, física e mentalmente exigente, e que poderá começar a desenhar diferenças reais na classificação geral

Classificação da 1ª Etapa

📸 Fotos oficiais D/R